Regiões e Bacias Hidrográficas

 

Qualidade das Águas

Em 1979, a FEEMA iniciou o serviço de monitoramento das águas do Rio São João, contabilizando 8 pontos de amostragem na bacia. Devido à crônica falta de recursos, o serviço foi diversas vezes paralisado, até ser interrompido em 1997. Há portanto, relatórios que mostram a qualidade da água antes e após a construção da represa. Relatório publicado em 1982 apresenta dados de OD, DBO, coliforme fecal, nitrogênio amoniacal, nitrogênio orgânico, fósforo total, surfactantes, pH, fenóis, cianetos, cádmio, cromo, cobre, chumbo, zinco, mercúrio e inseticidas organo-clorados relativos a amostras colhidas em 1981.

Em 1999, o engenheiro Elder Costa realizou um minucioso estudo para o Projeto Planágua SEMADS/GTZ consolidando todo o acervo de informações da FEEMA sobre a qualidade da água do São João.  Provavelmente, o DNOS promoveu amostragens nas décadas de 70 e 80 para embasar os estudos de irrigação, mas estes dados não foram encontrados.   

As principais conclusões dos estudos da FEEMA são:

  • Os rios São João, Capivarí e Bacaxá, à montante de Juturnaíba, mostram contaminação por esgotos produzidos pelas comunidades que habitam as margens da represa (Juturnaíba) e pelo esgoto bruto das áreas urbanas mais afastadas, que chegam através dos rios;
  • O reservatório de Juturnaíba apresenta ainda hoje problemas com o crescimento de plantas aquáticas, vegetação emergente e enraizada, como conseqüência das pequenas profundidades na maior parte da represa, do significativo aporte de esgotos e baixa capacidade de circulação hidrodinâmica, aliada a inundação de solos férteis, brejos e matas ribeirinhas que não foram removidas;

·         Na maior parte do tempo as águas da represa encontram-se misturadas devido à ação dos ventos, podendo haver estratificação térmica temporária em períodos de clima quente e calmo;

  • A quantidade de sólidos totais recebida pelo reservatório é da ordem de 100 mg/l, dos quais 35% constituem resíduos orgânicos. Por esta razão, a transparência da água é baixa, da ordem de 0,75m em média, inferida pelo disco de Sechi;
  • A FEEMA, em função do aporte de nutrientes, principalmente nitrogêncio e fósforo, classifica o reservatório como mesotrófico.
  • As obras de retificação, tanto à montante como à jusante do reservatório, criando calhas artificiais sem os devidos cuidados com a vegetação das novas margens, ainda contribuem para as altas concentrações de sólidos em suspensão nas águas.

Helder Costa conclui que “a tendência ao longo dos anos será a elevação gradual dos níveis de oxigênio dissolvido com a diminuição de substâncias oxidáveis presentes no fundo do reservatório.  Níveis baixos de oxigênio dissolvido no fundo acarretam, além de danos à fauna bentônica, a ressolubilização de substâncias como fósforo e o aumento na concentração de amônia”. Cita ainda que os seguintes problemas no tratamento da água:

·         Presença de compostos orgânicos que inibem os processos de floculação e dificuldades na fase de cloração;

·         Formação de substâncias húmicas (ácidos húmicos, fúlvicos e himatomelânicos) em decorrência da decomposição de resíduos vegetais;

·         Presença de pequenas quantidades de compostos orgânicos, provenientes das algas, que podem produzir sabores e odores desagradáveis;

·         Presença de amônia livre na água com repercussão negativa no processo de desinfecção por cloro.

Em 1995, o Departamento de Química Analítica do Instituto de Química da UFF, associado ao Instituto de Físico-Química da Universidade de Maiz na Alemanha e financiado pela CAPES, DAAD/Alemanha e pelo Instituto Aqua, realizou pesquisas sobre os efeitos da variação do nível de água da represa sobre a qualidade da água. Adicionalmente, investigou as concentrações de mais de 60 pesticidas e de diferentes ácidos aminopolicarboxílicos no corpo da represa. O estudo concluiu que a represa estava livre da presença de mais de 60 pesticidas, pois nenhum fora detectado na concentração acima de 100 ng/l. (nanogramas por litro). EDTA foi detectado em níveis de concentração de 2 mg/l na represa e na água potável preparada com água da represa. Traços de bifenil foram identificados na represa - sua origem pode ser o uso dessa substância para impregnação da embalagem de frutas cítricas. A água potável captada na lagoa em duas diferentes estações de tratamento foi investigada com respeito a subprodutos de desinfecção (DBPs), tais como ácidos orgânicos clorados. A concentração dos DBPs investigados chegou a 180 mg/l em uma das amostras.

Em suma, os estudos mostram que os rios São João, Bacaxá e Capivari encontram-se poluídos por esgoto à montante da represa, e que esta, sendo o receptor final, acaba tendo suas águas comprometidas. O fato de não ter havido desmatamento anterior ao enchimento agrava o problema e evidencia que, embora a represa possua quase vinte anos de idade, o ecossistema artificial não estabilizou, fato incomum em reservatórios em regiões tropicais.

Um aspecto importante que tem ocorrido no baixo curso é a acidificação das águas. Em 1986, Lizia Vanacour e M. Ferreira chamaram a atenção para a fragilidade dos solos da baixada, atestando que a drenagem dos solos sulfatados estava causando a acidificação das águas dos canais e toxidade nas culturas de arroz, além da destruição dos habitats dos peixes. Tal impacto persiste, sendo recentemente detectado pelos testes de água realizados pelo FEEMA e CILSJ no baixo curso do rio São João. Tem ocorrido mortandade de peixes sempre após períodos de chuva forte (3 ou 4 dias). O pH das águas dos canais gira em torno de 3 e os peixes tem morrido intoxicados.

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