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As
Obras do DNOS
Os ecossistemas
aquáticos da bacia do rio São João foram muito
alterados pelas obras hidráulicas executadas
pelo DNOS, com interrupções, entre 1950 e
1985. Os estudos de engenharia para drenagem
da bacia do Rio São João foram provavelmente
iniciados nos anos 30 do século passado pela
Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense
- CSBF, órgão criado em 5 de julho de 1933
por Portaria do Ministro de Viação e Obras
Públicas, no Governo de Getúlio Vargas.
A Comissão
realizou os primeiros diagnósticos da bacia
e, provavelmente, esboçou algumas medidas
para drenagem dos brejos e canalização dos
rios. Mas ela não empreendeu qualquer obra
na região, dedicando-se as bacias das baías
de Guanabara e Sepetiba e, principalmente,
à bacia da lagoa Feia e ao baixo curso do
rio Paraíba do Sul.
Em 1939,
a CSBF foi transformada em Diretoria de Saneamento
da Baixada Fluminense - DSBF. Um ano depois,
a DSBF foi extinta e absorvida pelo Departamento
Nacional de Obras e Saneamento - DNOS, criado
pelo Decreto-Lei n° 2.367 de 4 de julho de
1940. O DNOS foi reorganizado em 1946 pelo
Decreto-Lei 8847 de 24 de janeiro, reestruturado
em 1962 pela Lei 4.089 de 13 de junho e extinto
pela Lei 8.029, sancionada por Collor de Mello
em 12 de abril de 1990.
Na prática,
o DNOS só começou a agir na bacia do rio São
João em 1950, sendo que nas décadas de 70
e 80 ele realizou os principais estudos que
deram origem às grandes obras, que compreenderam
a retificação e canalização dos principais
rios, a drenagem de brejos e a construção
da represa de Juturnaíba. Clique aqui
para ver o mapa que mostra o plano de obras
do DNOS para a bacia.
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Fonte:
Cunha, 1995 – com base em Planta de
Projeto do DNOS
Legenda:
(1) Manutenção do Leito Original (2)
Leito Original com função parcial (3)
Leito deixado seco (4) Canais executados
com função plena (5) Canais programados
para prosseguimento com prioridade (6)
canais projetados sem prioridade (7)
linha do reservatório (8) linha da costa.
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As primeiras
obras foram realizadas nas décadas de 1950
e 60, quando o DNOS retificou longos estirões
dos rios Bacaxá e Capivari nos trechos de
baixada, totalizando 18 km e 15 km, respectivamente,
assim como em alguns afluentes. Na década
de 1960, um trecho de 3 km do rio São João
também foi retificado para facilitar as obras
da BR-101. Entre 1976 e 1980, um estirão de
20 km do leito do rio São João, desde Gaviões
até as proximidades da represa, foi aprofundado,
alargado e retificado, o mesmo ocorrendo com
o baixo curso dos rios Águas Claras, Pirineus,
Bananeiras, Maratuã, Salto d’Água e do Ouro.
Em 1967 o extinto
Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica
– DNAEE, atual Agência Nacional de Energia
Elétrica - ANEEL, instalou a estação fluviométrica
de Correntezas, no médio São João, um pouco
a montante da confluência do rio Bananeiras.
Tudo
indica que a represa de Juturnaíba foi idealizada
no fim dos anos de 1960, pois já em 1970 o
DNOS contratou a empresa de consultoria Engenharia
Gallioli para desenvolver estudos e elaborar
o projeto executivo da obra. Para dar conta
do serviço, esta empresa contratou a Hidrologia
S/A para implantar e operar postos fluviométricos
de modo a conhecer as vazões dos rios da bacia.
Em
1972 o Ministério do Interior anunciava a
idéia de construir a barragem de Juturnaíba,
realizar obras de macrodrenagem e promover
o aproveitamento hidroagrícola da baixada.
O projeto final da represa foi concluído
por volta de 1976, tendo sido planejada para
possibilitar o abastecimento público dos municípios
da região dos lagos e a irrigação das áreas
planas a jusante, que para tanto teriam que
ser drenadas.
Em
1975 o Ministério do Interior criou o Programa
Especial para o Norte Fluminense, no âmbito
do Programa Especial de Controle de Enchentes
e Recuperação de Vales, incorporando os projeto
da bacia do rio São João. No ano seguinte
o DNOS contratou a empresa Indústria e Finanças
Italianas Reunidas para o Progresso da Agricultura
- INFAGRARIA, que desenvolveu estudos para
aproveitamento agropecuário dos vales do rio
São João e Macaé, com ênfase na irrigação.
Em 1977 a Companhia Estadual
de Águas e Esgotos - CEDAE iniciou a captação
de água no rio São João, visando abastecer
os municípios da Região dos Lagos através
de uma adutora. A Companhia Nacional de Álcalis
possuía uma captação na lagoa, e através de
uma adutora supria de água suas instalações
industriais.
As obras de construção da barragem
foram executadas pela empresa Queiroz Galvão
entre 1978 e 1984. A empreitada sofreu diversos
atrasos devido à interrupção constante da
liberação de verbas, aos problemas enfrentados
pela instabilidade dos solos nos locais previstos
para instalação das fundações e pela falta
de áreas adequadas para extração de terra
e pedra requeridas para construção da barragem.
Em 1982 iniciou-se o enchimento da represa,
cujo nível de água operacional foi atingido
em 1984, ano em que as obras deram-se por
concluídas.
Ainda
na década de 1980, o DNOS construiu a jusante
da barragem um canal reto de 24,5 km, rasgando
a baixada para escoar as águas da represa
e drenar o vale. Aprofundou, alargou e retificou
o baixo curso dos rios Aldeia Velha, Indaiassu,
Lontra e Dourado e construiu inúmeras valas
para dessecamento da imensa área de brejo
a jusante da barragem.
Embora
a barragem tenha sido construída sob a vigência
de Deliberação da Comissão Estadual de Controle
Ambiental - CECA, editada em 1977, que obrigava
a elaboração de Relatório de Impacto Ambiental
- RIMA para efeito de licenciamento ambiental
de obras de grande vulto, nenhuma exigência
foi feita pelo Governo do Estado ao DNOS.
Nem mesmo a outorga para uso das águas da
bacia, obrigatória desde o início da década
de 1980, foi exigida.
Contudo,
a FEEMA desenvolveu estudos antes e após a
conclusão das obras, visando monitorar o impacto
ambiental e interferir junto ao DNOS para
mitiga-los. De positivo, atuou de forma decisiva
na implantação da Reserva Biológica de Poço
das Antas, cujo decreto de criação data de
1974.
Em
1987, o recém instalado Conselho Nacional
do Meio Ambiente - CONAMA, através da Resolução
012 de 26 de setembro, concedeu o prazo de
um ano para o DNOS realizar um “estudo
das conseqüências ambientais das obras em
execução e dos projetos programados para o
Estado do Rio de Janeiro e a apresentação
dos respectivos relatórios, bem como aos órgãos
federais, estaduais e municipais no que se
refere a obras realizadas nas lagoas costeiras”.
Como resposta, o DNOS contratou a empresa
Plandata, que em 1987 preparou o relatório
“Diagnóstico dos impactos ambientais -
bacia do rio São João”.
Infelizmente,
nenhuma medida foi tomada para minimizar os
danos, repetindo uma praxe do DNOS em todo
o Estado do Rio de Janeiro, que negligenciava
qualquer imposição dos órgãos ambientais ou
críticas da sociedade. Coroando sua conduta,
o DNOS infringiu ainda duas normas legais,
pois não fez o desmatamento prévio da área
a ser alagada pela represa e tampouco construiu
uma escada de peixes para permitir que cardumes
vindo do baixo curso do rio São João pudessem
acessar a represa.
É
importante assinalar que o DNOS elaborou o
projeto da escada. Mas abandonou-o após concluir
que era inviável, pois não sabia se haveria
água suficiente à jusante para escoar pela
escada. Ou seja, cogitava-se lançar grande
parte das águas da represa nos canais de irrigação,
o que deixaria o leito do rio São João com
uma vazão ínfima.
Em resumo,
entre 1950 e 1985, o DNOS realizou as seguintes
obras:
- Canalização
dos rios Bacaxá e Capivari, com aprofundamento
e ampliação do leito, em extensões aproximadas
de 18 e 15 km, bem como em alguns dos afluentes;
- Retificação
e alargamento do canal do rio São João,
a montante da represa, até a localidade
de Gaviões, bem como em vários afluentes;
·
Construção de
canal de drenagem de 24,5 km a jusante da
barragem;
·
Retificados
os trechos de baixada dos rios Águas Claras,
Indaiaçu, Pirineus, Maratuã, Aldeia Velha,
Lontra, Dourados e outros menores;
·
Abertura de
diversas valas dessecar brejos na baixada
à jusante da barragem,e;
·
Edificação da
barragem de Juturnaíba.
O projeto do DNOS previa ainda a escavação de dois canais partindo
da barragem, afastados da margem do rio, que
forneceriam água para irrigação das lavouras
por gravidade. Tais obras não foram executadas.
Em 12 de abril de 1990 o DNOS foi extinto no primeiro ano do
Governo Collor de Mello, sem qualquer período
de transição. A barragem e todos os canais
foram abandonados seis após terem sido concluídos.
Um valioso material composto de fotografias
aéreas, plantas de projetos, mapas, dados
hidrológicos e diversos outros relatórios
sobre a bacia do rio São João foram jogados
no lixo ou acumulados em galpões, estando
virtualmente perdidos. A CEDAE assumiu precariamente
a operação da barragem sem no entanTo fazer
a manutenção da mesma.
Dois
anos depois, em 1992, a SERLA e a Secretaria
de Desenvolvimento Regional da Presidência
da República, criaram um grupo de trabalho
para examinar a situação do empreendimento,
que já apresentava inúmeros problemas de deteriorização
e vandalismo. O Grupo produziu um relatório
para subsidiar o “plano de execução das obras
necessárias de recuperação e manutenção da
barragem”, mas nada foi feito. Em linhas gerais,
foram constatados os seguintes fatos: infiltrações
e deslocamentos superficiais da camada de
concreto em vários pontos da crista do vertedouro,
problemas graves nos canais laterais de fuga
como fissuras, trincas e colapso de parte
dos muros terminais, lasca nos pilares de
sustentação das comportas e constatação de
erosão retroprogressiva à jusante da bacia
de dissipação de energia.
Ainda
nos anos de 1990, para piorar a situação,
alguns pescadores amadores, de forma irregular
pois não dispunham de licença, lançaram alevinos
de tucunaré na represa.
No
início de 1997 o Governo do Estado repassou,
através de concessão para a iniciativa privada
os serviços de abastecimento de água e tratamento
de esgotos da Região dos Lagos. Foram vencedores
da licitação as empresas Águas de Juturnaíba
e Prólagos. A segunda ficou com a incumbência
contratual de limpeza dos taludes e manutenção
das comportas.
Preocupado
com o estado de abandono da barragem o CILSJ
iniciou em meados de 2001, entendimentos com
a Agência Nacional de Águas - ANA e com o
Ministério da Integração Regional, visando
encontrar uma solução para o problema. Ao
mesmo tempo, instou a Agência
Reguladora de Serviços Públicos Concedidos
- ASEP para que intercedesse junto a Concessionária
visando acelerar as obras de recuperação da
barragem. Os serviços
de manutenção, previstos em 1997, foram iniciados
somente em 2002. Na ausência de um comitê
de bacia, coube a ASEP definir as regras operacionais
da barragem que deverão ser cumpridas regularmente
a partir de agora pela Prolágos.
Decorridos
mais de 12 anos da extinção do DNOS, não se
conhece até hoje qual órgão federal é o herdeiro
da obra. No dia 19 de novembro de 2002, a
Assembléia Legislativa aprovou projeto-de-lei
que concede ao Governo Estadual, autorização
para negociar com o governo federal a incorporação
da represa de Juturnaíba ao patrimônio do
Estado. Pelo projeto, a represa ficará subordinada a CEDAE, que assumirá a operação e a manutenção do local.
O projeto será enviado à sanção do Poder Executivo.
Releva mencionar que
a barragem até hoje não dispõe de licença
ambiental ou outorga.
É
forçoso reconhecer que a represa de Juturnaíba
e os canais retificados são um fracasso social
e comercial e um grande problema do ponto
de vista ambiental. Herança dos governos militares
das décadas de 70 e 80, do qual o DNOS foi
um instrumento de materialização de idéias
faraônicas, o projeto jamais atingiu um de
seus principais objetivos, ou seja, a irrigação
de terras a jusante. Sob o ponto de vista
do abastecimento humano ele não se justifica.
Para atender a demanda futura da Região dos
Lagos e dos municípios da bacia não seria
necessário construir um reservatório tão volumoso.
O malogro do empreendimento foi analisado
em detalhe por Jacob Binzstok, professor do
Departamento de Geografia
do Instituto de Geociências da UFF
em estudo realizado em 1999, intitulado “Vale
do São João, um empreendimento fracassado
de agricultura comercial no Estado do Rio
de Janeiro”.
Por
fim, em 20 de março de 2002, o CONAMA baixou
a Resolução nº 302, estabelecendo parâmetros,
definições e limites de Áreas de Preservação
Permanente de reservatórios artificiais e
o regime de uso do entorno, procedimentos
estes aplicados ao gerenciamento da
represa de Juturnaíba. Basicamente, a Resolução
estabeleceu que a área de preservação permanente
no entorno de represas como a de Juturnaíba
é de 100 metros, medida a partir de no nível
máximo normal.
A
Resolução determina ainda que todas as represas
deverão ter, obrigatoriamente, um “plano
ambiental de conservação e uso do seu entorno”,
com o “objetivo de disciplinar a conservação,
recuperação, o uso e ocupação do entorno do
reservatório artificial”. Referido plano
deverá ser elaborado pelo proprietário da
barragem de acordo com instruções estabelecidas
pelo órgão ambiental, no caso a FEEMA.
As
regras que norteiam o plano são as seguintes:
- A
aprovação do plano ambiental de conservação
e uso do entorno dos reservatórios artificiais
deverá ser precedida da realização de consulta
pública;
- Na
análise do plano será ouvido o respectivo
comitê de bacia hidrográfica, quando houver.
- O
plano poderá indicar áreas para implantação
de pólos turísticos e lazer no entorno do
reservatório artificial, que não poderão
exceder a dez por cento da área total do
seu entorno, sendo que estas áreas somente
poderão ser ocupadas respeitadas a legislação
municipal, estadual e federal, e desde que
a ocupação esteja devidamente licenciada
pelo órgão ambiental competente.
Aos
empreendimentos objeto de processo de privatização,
até a data de publicação desta Resolução, aplicam-se
às exigências ambientais vigentes à época da
privatização, inclusive os cem metros mínimos
de Área de Preservação Permanente. |