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Impactos Ambientais
Os impactos
ambientais causados pela construção da barragem
e da represa, bem como pelas obras de retificação
e drenagem foram minuciosamente relatados
por Sandra Batista da Cunha, em sua obra “Impactos
Ambientais das Obras de Engenharia sobre o
ambiente biofísico da bacia do Rio São João”
já citada. O texto a seguir faz uma apreciação
sucinta do assunto, incorporando outros fatores
que tem degradado a bacia.
Dragagem, Canalização
e Retificação dos Rios e Drenagem dos Brejos
Seguindo
uma receita mundial baseada no dogma de “saneamento
ou recuperação das terras”, as obras de retificação
realizadas pelo DNOS na bacia do rio São João
reduziram o comprimento dos rios, aprofundaram
e alargaram seus leitos, de modo que as águas
fossem dirigidas para jusante pelo menor caminho
e com a maior velocidade possível.
O
resultado, porém, foi desastroso do ponto
de vista ambiental e econômico. A dragagem
para retificação e as operações de manutenção
da limpeza e remoção de troncos e plantas
flutuantes simplificaram o habitat dos leitos,
ao eliminarem meandros e saliências. Foram
removidas estruturas que retêm entulhos orgânicos
(folhas, etc) que proporcionam habitat para
os organismos aquáticos e acumulam matéria
orgânica, que é por eles consumida.
As
ilhas de vegetação flutuante, as galhadas
e os troncos de árvores mortas submersos são
utilizados como locais de alimentação, abrigo,
cuidado de prole e descanso por várias espécies
de peixes. A remoção deles, por conseguinte,
reduziu as populações de peixes de muitas
espécies e levou a piabanha, por exemplo,
a quase extinção.
Além
disso, a modificação de traçados de canais
e o aprofundamento do leito pelas dragagens
eliminaram as matas ribeirinhas e afetaram
os alagadiços marginais aos rios, suprimindo
importantes áreas de procriação e alimentação
de peixes adultos e filhotes.
Afora
o aprofundamento do canal, a remoção do material
do leito pela dragagem pode ter alterado a
composição e o tamanho de partícula dos sedimentos
do leito. Os organismos diretamente afetados
pela remoção de material incluem invertebrados
grandes que vivem no fundo, como exemplo insetos,
vermes, sanguessugas, anfípodos, briozoários
e caranguejos, que são consumidos por peixes
e outros animais. Também foram prejudicados
os caramujos e os mexilhões de água doce,
os peixes de fundo e os ovos de peixes depositados
no leito.
A
eliminação de curvas acelerou o escoamento,
facilitando a erosão de margens e o transporte
de sedimentos, causando mudanças na qualidade
da água. A alteração do habitat e a maior
velocidade da água podem causaram efeitos
adversos sobre os peixes. A perda de transparência
e as partículas de barro e solo em suspensão
aumentam devido à perturbação do fundo e à
maior velocidade da corrente. Cada espécie
aquática tem um intervalo preferencial e uma
margem de tolerância para a velocidade e a
transparência da água. Portanto, qualquer
mudança pode reduzir o habitat disponível
para alguns grupos de peixes.
A
perda de transparência prejudica ainda os
peixes que localizam o alimento empregando
a visão como principal instrumento, além de
embaraçar a respiração de larvas, alevinos
e adultos, interferir desfavoravelmente na
incubação dos ovos e reduzir a produtividade
de microalgas nos alagadiços e lagoas marginais,
pois diminui a penetração da luz solar.
Os
impactos causados pela dragagem e a manutenção
de canais dependem do tamanho do rio. Os rios
menores e as porções superiores dos cursos
são mais impactados. A dragagem e a construção
de canais podem alterar também a capacidade
de escoamento, acelerando-o, o que diminui
a inundação das áreas marginais. Ademais a
deposição do bota-fora em geral é feita na
margem dos rios, o que soterrou lagoas e alagadiços
marginais.
Enfim,
as obras do DNOS reduziram os brejos e quase
eliminaram as matas ribeirinhas; destruíram
os habitats dos canais dos rios e diminuíram
os cardumes. Além disso, o escoamento foi
acelerado, os rios ganharam maior capacidade
de arrastar sedimentos e houve um aprofundamento
e alargamento da calha. Os efeitos danosos
mais evidentes da conjugação das obras do
DNOS com a retirada de areia é o afundamento
do leito do rio principal e de alguns afluentes.
Os córregos tributários a estes também afundaram
para se ajustar, reentalhando a calha. É possível
observar rios com pouca vazão que apresentam
barrancas elevadas devido a “acomodação”.
Os sedimentos finos lançados na água pela
atividade mineral estão assoreando rapidamente
a represa.
Cabe
assinalar ainda que a drenagem dos brejos
acarretou o secamento da turfa ao rebaixar
o lençol freático, tornando determinadas áreas
altamente suscetíveis ao fogo. Basta
um fazendeiro iniciar a queima de pasto ou
uma fagulha ser produzida pelo atrito da roda
do trem com o trilho para que no inverno as
chamas se alastrem. Em 2002 a Reserva Biológica
de Poços das Antas teve um incêndio que destruiu
1.130 hectares. Em 1999, outro incêndio destruiu
526 hectares da reserva e, em 1993, cerca
de 820 ha foram consumidos pelas labaredas.
O maior de todos foi em 1990, mas não há dados
sobre a área afetada. Apesar de condenável,
a drenagem de brejos permanece sendo realizada
pelos serviços de extensão rural.
Extração
Mecanizada de Areia em Leitos
A
extração de areia a montante da represa ocorre
há muito tempo, concentrando-se atualmente
nos leitos dos rios São João, Pirineus e Bananeiras.
Os extratores de areia subiram os rios em
busca dos depósitos de areia mais grossa,
lavrando grande parte do leito. A extração
compreende a dragagem dos sedimentos através
de bombas de sucção instaladas sobre barcaças
ou flutuadores montados sobre tambores. As
bombas de sucção são acopladas às tubulações
que efetuam o transporte do material dragado
até as peneiras dos silos. A extração de areia
provoca graves conseqüências nos cursos d’água:
macroturbulência localizada, ou seja, alteração
da velocidade do escoamento; aprofundamento
do leito do rio; ressuspensão de sedimentos
finos, desfiguração da calha, desmonte de
barranca, solapando as margens, e criação
de enseadas laterais na calha dos rios, afetando
os peixes de uma forma geral pela destruição
do habitat e pelo aumento da turbidez.
Construção da Represa
O
primeiro impacto da represa foi eliminar a
lagoa de Juturnaíba e trechos dos rios São
João, Capivari, Bacaxá e Onça, submergir matas
ribeirinhas e brejos e segmentar o rio São
João, isolando o médio e o baixo curso. Isto
desencadeou a deteriorização da qualidade
da água, pois a vegetação florestal não foi
previamente removida. Entre os principais
processos suscetíveis de ocorrer devido à
inundação da vegetação durante a formação
de reservatórios, destacam-se:
-
A decomposição da matéria orgânica,
provocando o consumo parcial ou total do oxigênio
dissolvido (OD), utilizado nas reações bioquímicas
de estabilização, devido à alta demanda bioquímica
de oxigênio (DBO). Em caso de prolongados
períodos de anoxia em reservatório, pode ocorrer
a formação de ambiente séptico, o aparecimento
de gases como o CH4 (metano) e o H2S (gás
sulfídrico) e a produção de amônia;
-
A dissolução
de nutrientes oriundos da vegetação e dos
solos alagados, principalmente dos macronutrientes
nitrogênio e fósforo. Esse fenômeno de fertilização
excessiva da água causa um incremento significativo
na produção primária, favorecendo a proliferação
de plantas aquáticas, principalmente nas zonas
litorâneas dos reservatórios;
-
O aumento da cor e da turbidez
da água pela liberação de substâncias fenólicas,
taninos e ligninas, contidas na parte lenhosa
da vegetação, e a diminuição dos valores de
pH, decorrentes da elevação dos níveis de
CO2 na água devido à degradação da matéria
orgânica;
-
Mudanças na
composição de espécies de algas e microorganismos
aquáticos, decorrentes dos processos acima
descritos, em função do seu papel fundamental
nos ciclos do fósforo, do nitrogênio, do enxofre,
do carbono e dos demais elementos da represa;
Outro
fator importante envolvido se refere ao tempo
de residência da água. Na represa ele
é de 38 dias, ou seja, elevado. Um alto tempo
de residência favorece a concentração de nutrientes,
estimulando a proliferação de plantas aquáticas.
Um aspecto ainda não estudado foi o impacto
da água que sai da represa na qualidade da
água do canal à jusante.
Retendo
sedimentos no corpo da represa, o barramento
de um rio induz à erosão e ao aprofundamento
da calha no trecho de jusante, o que ocasiona
uma diminuição em sua largura. Em geral, esta
erosão inicia-se próxima à barragem e pode-se
estender por quilômetros.
Sobre
a fauna, a represa teve diversos efeitos que
permanecem ainda pouco estudados. O mais evidente
foi à eliminação do robalo, da tainha e do
pitu nos trechos superiores do rio São João,
que antes eram capturados na lagoa de Juturnaíba.
A barragem impede que os peixes passem para
montante. O quadro abaixo retrata um levantamento
feito em 1985, comprovando o dano.
Produção
diária por canoa (1985)
|
Espécies
|
Antes
da Barragem (Kg)
|
Depois
da Barragem (Kg)
|
|
Sairu
|
2000
|
10
a 20
|
|
Traíra
|
100
|
10
a 20
|
|
Tainha
|
5
|
-
|
|
Robalo
|
15
|
-
|
|
Pitu
|
25
|
-
|
|
Fonte:
Lizia Vanacour e M. Ferreira – Impacto Ambiental
na Bacia
do Rio São João – 1985
|
Várias
outras espécies que viviam nos cursos de água
e na lagoa de Juturnaíba devem ter sofrido
uma redução de seus cardumes enquanto outras
deixaram de existir na represa. Contudo é
provável que poucas espécies nativas tenham
sido favorecidas, sobretudo aquelas que se
aclimatam a viver em águas paradas. Só um
estudo será capaz de lançar uma luz melhor
sobre o problema. Por fim, as flutuações
do nível de água do reservatório sem qualquer
programação podem estar afetando negativamente
as populações das espécies que ocupam a margem
e, principalmente, aquelas que desovam somente
nas porções litorâneas, pois a depleção expõe
os ovos a dessecação. É o caso da traíra.
Moradores comentam que casas em Juturnaíba
e algumas estradas são inundadas quando a
represa esta cheia.
Povoamento
com Espécies Exóticas
A
introdução do tucunaré poderá trazer graves
conseqüências para a fauna de peixes nativas,
pois ele é um carnívoro por excelência.
Pesca Criminosa
Há
registro de pesca criminosa a jusante da barragem
de Juturnaíba, quando os cardumes concentram-se
durante a migração. Comenta-se ainda sobre
o uso de redes de malha fina na represa e
da sobrepesca do sairu no rio Bacaxá, na época
da migração, feita por pescadores do Norte
Fluminense, geralmente no mês de novembro.
A Prefeitura de Araruama, em conjunto com
o Batalhão de Polícia Florestal, tem feito
ações freqüentes para coibir o delito.
Esgotos Sanitários
Chegam
à represa de Juturnaíba as sobras dos esgotos
não depurados pelos rios ao longo de seus
trajetos. Através do rio São João são lançados
os esgotos de diversas localidades como Gaviões
e Correntezas. Já o rio Capivari descarrega
os efluentes sanitários da cidade de Silva
Jardim e dos povoados de Varginha, Boqueirão
e Imbaú, dentre outros. O rio Bacaxá
despeja na represa parte da carga orgânica
que não depurou dos esgotos coletados por
ele e por seus afluentes nos povoados de Lavras,
Rio Vermelho, Catimbau Grande, Prainha. Boa
Esperança, Nova Cidade, Bacaxá, Jacundá, Latino
Melo e Morro Grande, além da parte oeste da
cidade de Rio Bonito. A jusante da represa,
o rio recebe os esgotos de Aldeia Velha, Casemiro
de Abreu, Professor Souza, Rio Dourado, Barra
de São João e Santo Antônio.
Efluentes Industriais
As
informações sobre este assunto são escassas.
Entretanto, pode-se afirmar que a atividade
industrial na bacia é de pequena monta e seu
potencial poluidor reduzido.
Estradas Vicinais
A
bacia é repleta de estradas vicinais com traçados
incorretos e cujos serviços de manutenção
são realizados de forma inadequada. As que
cruzam as áreas serranas são grandes fontes
produtoras de sedimentos para os rios, ajudando
a assoreá-los.
Praticas Agropecuárias Destrutivas
Muitas atividades agropecuárias na bacia são extremamente
destrutivas, acarretando a perda de solos,
erosão e o assoreamento de córregos, além
da remoção das florestas e a acidificação
das águas no baixo curso devido à drenagem
de solos.
Ocupação das Restingas e
Manguezais
Em Barra de São João e em Santo Antônio observa-se
uma invasão dos manguezais da foz do rio São
João, enquanto ao longo do litoral, loteamentos
estão eliminando os últimos resquícios de
vegetação de restinga da bacia.
Agrotóxicos
Sobre
a poluição de agrotóxicos os seguintes podem
ser destacados, segundo Helder Costa:
·
Uso de pesticidas
e fertilizantes não registrados em área de
cultivo de grama, monocultura em larga escala,
no alto São João;
·
Comércio de
herbicidas, em especial o Thordon, aplicado
em grandes áreas pastagens nas cabeceiras
do Rio Bacaxá;
·
Uso de herbicidas
não registrados em áreas de cultivo de inhame,
cultura que vem aumentando significativamente
à montante da represa de Juturnaíba;
·
Equipamentos
inadequados manuseados por pessoal sem habilitação.
Anualmente, aplica-se na
bacia pelo menos 30 mil toneladas de agrotóxicos,
mais da metade nas culturas de laranja, limão
e tangerina.
O quadro abaixo sintetiza
as informações sobre a aplicação de agrotóxicos
pelas principais culturas.
|
Cultura
|
Área
(ha)
|
Consumo
de Agrotóxicos (kg/ha/ano)
|
Consumo
Total (kg/ano)
|
Épocas
de Aplicação de Agrotóxicos
|
|
J
|
F
|
M
|
A
|
M
|
J
|
J
|
A
|
S
|
O
|
N
|
D
|
|
Pastagens
|
84.897,7
|
0,0004
|
45,3
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Forrageiras
de Corte
|
2075,4
|
0,004
|
8,3
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Cana-de-açúcar
|
4680,0
|
1,00
|
4380,0
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Arroz
|
723,0
|
0,80
|
578,0
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Aipim+Mandioca
|
936,6
|
ND
|
ND
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Banana
|
1839,2
|
0,01
|
18,4
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Citros
(laranja, limão, tangerina)
|
15.322,9
|
1,40
|
18.387,5
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Coco-Verde
|
200,0
|
1,70
|
340
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Feijão
|
578,0
|
ND
|
ND
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Inhame
|
950,0
|
5,00
|
4750,0
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Mamão
|
98,0
|
3.00
|
294,0
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Maracujá
|
65,5
|
1,20
|
78,5
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Milho
|
424,0
|
0,06
|
25,4
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Outras
Olerícolas (quiabo, jiló e pimentão)
|
219,5
|
0,50
|
110,0
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
TOTAL
|
|
|
29.315,6
|
|
Fonte: Helder Costa – 1999.
Acidentes com Carga Perigosa
na BR-101
Com relativa freqüência são registrados acidentes
de caminhões com carga tóxica que eventualmente
podem atingir os rios Bacaxá, Capivari e São
João. Um grave acidente poderá provocar
a chegado do material contaminante até a represa,
comprometendo a qualidade da água ou mesmo causando
a interrupção do abastecimento. |