Regiões e Bacias Hidrográficas

 

Cobertura Vegetal e Uso da Terra

O uso da terra na bacia do rio São João é caracterizado por assentamentos humanos (cidades, vilas e povoados), áreas agrícolas e de pastagens e remanescentes de distintos tipos de vegetação nativa, incluindo campos de altitude, florestas, brejos, campos inundados, pastagens e restingas. 

Os campos de altitude devem ocorrer apenas nas imediações da pedra do Faraó. As florestas pertencem ao grande ecossistema da Mata Atlântica, podendo ser encontradas matas de topo de montanha, de meia encosta, de baixada e ribeirinhas. No passado, revestiam integralmente as serras, o planalto e as colinas, contendo várias espécies de madeiras nobres como pau-brasil, tapinhoã, guanandi, angelim, vinhático e cedro, todas retiradas em grande quantidade nos séculos passados. Até 1966, a bacia ainda apresentava uma significativa cobertura florestal. Na década de 70 as matas foram postas abaixo para produção de carvão.

Hoje, via de regra, não há grandes extensões contínuas de florestas, mas fragmentos de variados tamanhos, isolados ou semi-isolados, cercados por pastagens e alguns cultivos.  Estudos detalhados sobre a mata atlântica da bacia do rio São João vêm sendo realizados pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, especialmente na Reserva Biológica de Poço das Antas.    

Os maiores blocos de mata encontram-se nas serras de Patis, Botija, Santana, São João, Taquaruçu, Pilões, Boa Vista e Pedra Branca e no Morro de São João. Uma mancha isolada ocorre nas serras à nordeste da cidade de Casemiro de Abreu, na região das cabeceiras dos rios Dourados e Lontra. No planalto há diversos fragmentos florestais na serra do Sambê, assim como nas elevações próximas.

Manchas de mata sobre colinas são notadas nas Reservas Biológicas de Poço das Antas e União e em poucas áreas ao sul da cidade de Casemiro de Abreu. Aí é comum a presença das palmeiras pindoba e iri, que resistem ao fogo e rebrotam com intensidade. Toda parte sul da bacia foi extremamente devastada e substituída por capim, em especial na área rural de Araruama, Cabo Frio e São Pedro da Aldeia. Resquícios de mata nesta região podem ser observados apenas em Rio Bonito, nas cabeceiras do rio Boa Esperança e em algumas colinas no vale do rio Vermelho.    

Relatos de viajantes e pesquisadores descrevem que na baixada aparecia uma vegetação em forma de mosaico adaptada ao quase permanente alagamento, em cujo subsolo era encontrada uma quantidade copiosa de turfa. O mosaico era formado por brejos de grandes extensões cercados por campos sujeitos a inundação periódica ou permanente. No meio, em alguns trechos, surgia um ecossistema peculiar muito comum antigamente no Estado do Rio de Janeiro - as matas ribeirinhas ou ciliares.

Com a construção das diversas valas de drenagem pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento - DNOS e por fazendeiros, houve uma redução drástica dos brejos e campos inundados, mas a baixada revela uma surpresa agradável. Trata-se de remanescentes de mata ribeirinha com brejos que acompanham o rio São João, com largura variável, entre a foz do rio Lontra até as proximidades do Morro de São João. Pode-se afirmar que, embora alterada, esta mata ribeirinha é uma das últimas amostras deste tipo de ecossistema no Estado do Rio de Janeiro, sendo seguramente a maior e em melhor estado de conservação. Em 1978, durante a construção da barragem de Juturnaíba, a FEEMA realizou o único estudo existente sobre esta mata, constatando a presença das árvores pau-tamanco, ingás, aroeiras e guanandis, dentre outras. 

A vegetação de restinga que reúne arbustos e ervas encontra-se a beira de ser erradicada na bacia devido aos loteamentos litorâneos ao norte e ao sul da foz do rio São João, assim como pela exploração de areia.

As matas de restinga, que ocupavam grande parte da zona arenosa litorânea, foram praticamente erradicadas. Resta um valioso pedaço, em muito bom estado, na extremidade da bacia ao sul do loteamento de Verão Vermelho, que pode ser visto na foto de satélite ao lado. É a macha verde encostada na praia na metade inferior da foto. Ela encontra-se abrigada em uma propriedade da Base Aeronaval de São Pedro de Aldeia.  Releva mencionar que a presença da mata de restinga em toda costa da bacia é comprovada pelos relatos dos viajantes que passaram pela região, tais como os naturalistas Maximiliano de Wied-Neuwied, em 1815, e Saint-Hilaire, em 1818.    

Fonte: UFF-RESUB

Os manguezais surgem às margens do rio São João, desde as proximidades do morro de mesmo nome até a foz, existindo também em trechos curtos ao longo do rio Gargoá.

Entre as atividades agropecuárias, observam-se a criação de gado para corte e leite, piscicultura, avicultura, suinocultura e criação de cavalos. A principal lavoura é de citricultura, seguida de cana de açúcar, arroz, mandioca, banana, coco, feijão, inhame, mamão, maracujá e milho, além de gramíneas e forrageiras plantadas. A irrigação na bacia se faz tanto à montante como à jusante da represa. As lavouras irrigadas são principalmente olericultura e cítricos à montante do reservatório e, à jusante, arroz, cítricos e cana-de-açúcar.  As pastagens e campos nas baixadas e colinas são em sua grande maioria, formados por gramas e ervas estrangeiras plantadas e ou invasoras.

Em suma, a situação ambiental da bacia reflete quatro séculos de ocupação humana e exploração destrutiva dos recursos naturais, onde as matas foram sucessivamente derrubadas, regenerando-se  em parte nos intervalos dos ciclos econômicos. A bacia foi palco da exploração de madeira e do cultivo de cana e café. A partir de 1888, a madeira esquentava as fornalhas das locomotivas da Estrada de Ferro Leopoldina. No século passado, iniciou-se a expansão de citricultura e da pecuária, a retomada da cana e o cultivo de arroz irrigado. Nos últimas décadas, assiste-se a intensa ocupação da faixa litorânea de Casemiro de Abreu e Cabo Frio, através de loteamentos sem qualquer infraestrutura de saneamento básico, pondo fim à vegetação de restinga e aos manguezais.      

A título de conclusão deste item, vale a pena reproduzir um pequeno trecho do minucioso estudo sobre a história ambiental da zona costeira situada entre os rios São João e Itabapoana, conduzido por Aristides Soffiati, professor da Universidade Federal Fluminense em Campos dos Goytacazes. Analisando dados sobre a exploração de recursos naturais na região, Soffiati assinala dois importantes registros sobre o corte de madeira na bacia do rio São João e de como este rio era usado no transporte de toras no século XIX.  

O primeiro registro é de Manuel Aires de Casal em sua obra “Corografia Brasílica ou Relação Histórico-Geográfica do Reino do Brasil, publicada em 1817. Casal relatou que: “Das produções do distrito [dos Campos dos Goitacás] se colige, quais sejam os objetos mercantis, que dele se exportam, ou podem exportar-se. A estes se deve ajuntar o da madeira, que é considerável, em razão da grande diversidade de árvores de bom pau para construção principalmente; como Angelim amargoso, dito de roda; araribá vermelho, amarelo, e preto; bicuíba; bicuibuçu; caixeta amarela, e branca; canela branca, dita preta, dita parda, dita tapinhoã, dita do brejo; cedro vermelho, dito batata; cerejeira preta, branca e amarela; sapipira preta, dita amarela; guarapiapunha; gurumarim amarelo, e branco; guarubu pardo, e roxo; jacarandá; jacuá; jequitibá preto, amarelo, branco; ipê, que é o pau-santo, preto, e amarelo; oiti; jundiaíba; louro preto, dito branco, dito amarelo; massaranduba; merendiba; mussutuaíba; óleo pardo, dito vermelho, dito copaíba, dito caboraí; peroba vermelha, a que chamam sobro, dita amarela; pau d’arco; pau-ferro; tinguaciba; tapinhoã; vinático amarelo, dito vermelho, dito preto, dito cacunda; inhaíba; oiticica, piquiá; sapucaia vermelha, dita mirim; guratã; baraúna, iriarana; câmara e outras, entre as quais se acham três qualidade de pau-brasil, dos quais o denominado mirim é o melhor. A maior parte destas madeiras desce pelo Rio de São João, e pelo Macaé.”.

O segundo registro vem do botânico francês Saint-Hilaire, que anotou em 1818: “Grandes florestas virgens margeiam o rio que tem cerca de 18 léguas de curso; os proprietários ribeirinhos derrubam e serram as árvores melhores e vendem as tábuas a negociantes de S. João (refere-se a Barra de São João), que as expedem para o Rio de Janeiro. Como os colonos empregam ordinariamente seus escravos no trabalho da derrubada, não cultivam senão o necessário ao consumo de suas famílias; também os travessadores não aparecem nesta zona; há entretanto, alguns engenhos de cana nos arredores de S. João, sendo proprietários homens ricos, não vendendo na região o produto de seus estabelecimentos. Eles têm no Rio de Janeiro correspondentes ou sócios aos quais expedem o açúcar, havendo alguns que o fazem em embarcações particulares (...) Os cultivadores que não possuem engenhos de cana, mas que possuem mercadorias a vender, fazem o mesmo que os produtores de açúcar – enviam-nas, por conta própria, ao Rio de Janeiro.”.

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