Plenária de Entidades

  

AÇÕES DE ENTIDADES NÃO GOVERNAMENTAIS PARA A RECUPERAÇÃO AMBIENTAL 
DA REGIÃO DOS LAGOS  (1999/2002)

  

 A região dos Lagos após a construção da Ponte Rio Niterói passou a receber significante incremento de moradores, veranistas e turistas. A ação antropogênica desse fluxo ameaça comprometer a qualidade ambiental da Lagoa Araruama e da região. 

           A Lagoa Araruama, de cor azul com águas transparentes e cristalinas com fundo de areia coberto por carpete de conchas, não existe mais. As águas estão turvas de norte a sul, ora de cor verde escura, ora amarelo marrom, o fundo está coberto por camada de lama e as praias contaminadas por algas. 

           Com esse panorama, as comunidades, preocupadas, independente de sua condição social, econômica, idade ou nível cultural,  se organizam, exigem providências urgentes através de um clamor regional:  

A Lagoa está morrendo: Alguém tem que fazer alguma coisa. 

Para atender ao clamor a sociedade civil se organizou e se uniu. Preliminarmente formou o movimento denominado UNIÃO DAS ASSOCIAÇÕES DE PESCA E DEFESA DA LAGOA ARARUAMA, constituído pelas organizações não governamentais: Accolagos, Viva Lagoa, Aspergilus, Rotary Clube de Iguaba, Movimento Mulheres de Iguaba, Associação de Pescadores Artesanais de Iguaba, de Araruama, da Praia da Pitória, da Baleia. 

Os inimigos, poderosos, são traduzidos por:

-          exploração econômica sem escrúpulos,

-          mau uso político,

-          impunidade,

-          falta de recursos para investimentos,

-           ausência de educação fundamental. 

O grupo definiu um programa de trabalho, com 5 frentes, acoplado com ações de educação ambiental, que visa:  

1 – Implantar obras de Saneamento: esgotamento sanitário, resíduos sólidos, desassoreamento,

2 – Interromper a  exploração de calcário conchífero,

3 – Controlar a pesca predatória,

4 – Controlar a ocupação do entorno lagunar,

5 – Implantar  Monitoramento Ambiental. 

Nesse ínterim, o governo propõe uma nova estratégia com finalidade de integrar os diversos atores que compõem a região, buscado maior  participação em processos decisórios. Criou-se o Consórcio Ambiental Lagos São João (CALSJ), hoje Consórcio Intermunicipal Lagos São João (CILSJ) que permitiu a integração dos órgãos de governo (Estado e Municípios), de empresas e de Organizações não Governamentais.  

Ao grupo União das Associações, inicialmente formado, juntam-se as organizações: Mico Leão Dourado, Movimento Ecológico Rio das Ostras (MERO), Ressurgência de Arraial do Cabo, Rotary de Araruama e Associação de Defesa de Jacarepie (ADEJA), AMIGOS de Saquarema, União Lagoas de Búzios, AMA Cabo Frio, Pronatura, etc. Formou-se a Plenária de Entidades da Região dos Lagos, conhecida como Plenária do CILSJ, que hoje conta com 40 Entidades regulares e outras associações informais. 

            O Consórcio para Gestão Ambiental despontou como a estratégia que está permitindo, ao longo do tempo, a valorização dos esforços de cidadania para conquistar a preservação ambiental, o bem estar da população e a recuperação da nossa Lagoa. É um marco trouxe os valores de equidade, participação cívica,  proteção, diversidade, co-gestão, organização, coordenação e solidariedade para a gestão ambiental. 

De imediato, visando nivelar conhecimento, o CILSJ realizou seminários nas diversas regiões (Saquarema, Araruama e Rio São João). Como resultado foram implantados Grupos Executivos, um para cada região (GELSA, GELA, GERSA), embriões de futuros Comitês de Bacia. A proposta de trabalho para a Lagoa de Araruama seguiu os princípios do programa que a União das Associações de Pesca e Defesa da Lagoa de Araruama já havia estabelecido e culminou como recomendações do Seminário Lagoa Araruama através do lançamento de Manifesto em Defesa da Lagoa de Araruama. (em anexo). 

Seguindo nosso programa de trabalho buscamos, numa luta sem tréguas, atingir nossos objetivos. Muito foi feito e muito há por fazer. Detalhamos um pequeno histórico de ações e resultados. 

1 – Exploração de calcário conchífero 

A empresa Álcalis retirou durante 40 anos conchas da Lagoa. Um recurso finito, colocado pela natureza há cerca de 5 mil anos e que uma vez removidas, deixam de existir. Os recursos de conchas em áreas fundas foram esgotados. A empresa adquiriu uma draga de corte e sucção para dragar áreas rasas (berçário de animais marinhos e locais próprios para turismo). 

A militância foi intensa. Participamos de inúmeras reuniões na região e no Rio de Janeiro, e de audiência pública onde os militantes das ong’s foram ovocionados (receberam ovos). Independente das ofensas e injurias, fizemos apresentação técnica do impacto ambiental da draga de corte e sucção, bem como auditoria ambiental sobre a licença de operação anteriormente concedida à empresa. 

Esse esforço provocou a suspensão da operação da draga de corte e sucção em áreas rasas e a assinatura de Termo de Ajuste de Conduta (TAC), que entre outras coisas, compromissou a empresa a terminar atividades de exploração de calcário (conchas) em 2 anos, ceder a draga de corte e sucção para trabalhos de desassoreamento de pontos obstruídos, custear o estudo da hidrodinâmica do canal Hidráulico. 

Ainda como conseqüência dessa luta, os demais moageiros de conchas (pequenas empresas), firmaram TAC para encerrar atividades em Outubro de 2002. No momento há litígio para o cumprimento desse TAC. 

Resultados:  

1.1    A empresa Álcalis interrompeu a exploração de calcário conchífero e atualmente usa em seu processo industrial calcário de rocha.

1.2    O estudo do canal hidráulico da Laguna foi concluído e hoje subsidia os trabalhos de dragagem dos pontos assoreados. Entretanto esse estudo, apropriado pela COPPETEC necessita ser disponibilizado para ser operacionalizado pelo CILSJ.

1.3    A draga de corte e sucção adquirida para explorar conchas, foi cedida ao CILSJ e está em operação removendo material assoreado.

1.4    A atividade de mineração de conchas por moageiros foi sustada em 17/10, por ação do IBMA – Rio e do CRESCA (Centro de Referência de Crimes Ambientais), acionados pela Plenária. Esperamos que os moageiros encerrem definitivamente a mineração de conchas na Lagoa.

2 – Saneamento:

2.1 – Esgotamento sanitário: Visando compromissar as concessionárias dos serviços de águas e esgotos Prolagos e Águas de Juturnaíba, o Rotary Clube das organizou seminários em todas as cidades, mobilizando a população para a questão do esgotamento sanitário, bem como solicitar mais ação por parte dos órgãos de governo. 

Tendo em vista a fraca resposta por parte das concessionárias, a mobilização continuou. Em janeiro-fevereiro de 2001 várias ong’s foram à Agência Reguladora de Serviços Públicos (Asep), no Rio de Janeiro, portanto faixas e cartazes, para junto a essa instância, reclamar da situação do esgotamento sanitário da região e do descaso da empresa Prolagos. O objetivo era repactuar o contrato de concessão visando antecipar prazos para o esgotamento sanitário, tendo em vista a oportunidade de uma das empresas buscar homologação do poder concedente na transferência de participação societária. 

A Prolagos assumiu compromisso de iniciar obras de esgotamento sanitário a partir de março/abril de 2001 em sua área de concessão. 

As obras não se iniciaram, a empresa não aceitava o conceito de captação de esgotos em tempo seco e seguia ignorando as solicitações da sociedade organizada. Mais uma vez iniciamos um processo de protesto. Representamos junto ao Ministério Público e junto a SEMADS (FEEMA). 

Em janeiro de 2002 as concessionárias voltam a solicitar a Asep o reequilíbrio financeiro de seus contratos. Era a ora de nos manifestarmos novamente. Mobilizamos a sociedade. Em caravana, portando faixas e cartazes, fomos à Asep, no Rio de Janeiro, em 3 reuniões consecutivas. Compareceram: representante da Feema, da Ceca,  do Ministério Público, de várias prefeituras e de diversas ong’s. A pressão era intensa e o clima tenso. Apresentamos documentos com nosso arrazoado. Questionamos a repactuação do contrato na questão fornecimento de água enquanto em contrapartida havia descaso total com o esgotamento sanitário. 

Finalmente as empresas Prolagos e Juturnaíba firmaram acordos que atendem aos anseios da sociedade: Captar esgotos de valas e córregos, em tempo seco, em um tronco coletor para levá-los a uma estação de esgotos eficiente. 

Compromissos assumidos:

  • As obras têm previsão de início em abril e termino em Dezembro de 2002, com possibilidade desse prazo se alongar por 4 meses, em alguns pontos em Cabo Frio, devido a problemas de levantamento topográfico.
  • São Pedro da Aldeia: o programa prevê a captação das valas da Baleia, Sudoeste, Boqueirão, Poço Fundo, Camerun, Porto da Aldeia, Arrastão, Mossoró, Hospital, Rodoviária. Na seqüência, o plano prevê a captação das valas do Campo Redondo, São João, etc., até o Baixo Grande A seguir serão captadas as Valas da Praia da Tereza, Balneário, Moinhos, Mac Donald's e Praia Linda. A atual ETE de São Pedro será descontinuada para dar origem a uma ETE em nível terciário.
  • Cabo Frio: Serão captadas as valas do Siqueira e do Excelsior. É previsto um prazo maior, cerca de 120 dias, para a captação das valas e manilhas do Itajuru, margem direita (Passagem, Picolino, Caça e Pesca, Ponto de Ônibus, e várias do Portinho). Na seqüência  serão efetuados estudos para captar a partir de 2003, as valas de esgotos da margem esquerda do Itajuru (Gamboa, Peixaria, Jacaré, Porto do Carro, Vinhateiro e Ponta do Ambrósio) e estudo especial para Ogiva, Peró e Conchas. Talvez haja necessidade de uma nova ETE para atender essa região. A ETE de Cabo Frio, em construção, segundo a empresa é estação mista entre sistemas de primária assistida com físico química e lodo ativado.
  • Iguaba Grande: Serão captados esgotos de canais (Canelas City, Iguabela e Igarapiaçú). A ETE, de nível terciário, deverá ter o efluente compatível com o corpo receptor. 
  • Araruama: Serão captadas as valas da Rodoviária, Pontinha, Campo do Rubro e o Rio Mataruna terá comportas. Os esgotos coletados serão levados a ETE de Araruama (Lagoas de estabilização). Para evitar o impacto “Boom de Macroalgas na Lagoa”, desse tipo de ETE,  o efluente deverá fluir por brejo até a Lagoa, para consumir nutrientes (Carbono mineral, Nitrogênio e Fósforo).

2.2 Resíduos sólidos: Lixo - Pouco se evoluiu nessa questão. Foram liberados alguns recursos para os Municípios que não apresentam propostas ambientalmente corretas para essa tarefa. Há planos para construção e operação de usinas de reciclagem, de compostagem e de construção de aterro sanitário.  

Uma proposta regional com poucos aterros para grupo de cidades da região não prosperou. Tememos que cada cidade construa usinas de reciclagem ineficientes, mantendo os vazadouros a céu aberto, com o degradante espetáculo cognominado “aterro controlado”. Estuda-se a implantação de combustão de lixo com geração de energia. Continuamos na militância para equacionar e solucionar essa questão. 

3. Controle da Pesca predatória 

Buscando melhorar a qualidade de vida dos pescadores encetamos várias ações visando defender e ampliar o parque pesqueiro de Araruama. Foram realizadas varias reuniões sobre o tema pesca tais como: Fórum da pesca, Agenda 21 da pesca, encontro de pescadores, e foi ainda elaborado um projeto de educação ambiental com apoio dos órgãos fiscais. Entretanto, por falta de absoluto apoio por parte do IBAMA agência Cabo Frio, nenhuma ação fiscal foi iniciada e a impunidade campeia. Por outro lado os processos poluitivos comprometem o parque pesqueiro e deixam os pescadores em difícil situação econômica. Praticamente não temos mais camarão na Lagoa, há várias espécies de peixes endêmicas ameaçados de extinção (Carapeba, Perumbeba) pelo problema poluição.  

4. Monitoramento 

As promessas de liberação de recursos para a recuperação ambiental da Lagoa de Araruama prometidas pelo então Governador Garotinho, não foram cumpridas. Os recursos da ordem de 6 milhões, embora aprovados pelo FECAM não foram efetivamente empenhados e toda a proposta de monitoramento e dragagem da lagoa foi postergada. 

Apesar das dificuldades, através do CILSJ, a sociedade se mobiliza para tentar preencher essa lacuna. Com apoio da FEEMA – MR4 que coleta amostras para colimetria, as Ong’s Viva Lagoa e Ecobrasil acompanham os trabalhos, medem a salinidade do ambiente lagunar e coletam amostras para análises físico-químicas e dosagem de Oxigênio que serão realizadas pela empresa Álcalis. Militamos para uma solução final nessa questão. Aguardamos que se instale na região um Centro de Pesquisas Ambientais com vistas a monitorar definitivamente o parque aquático Araruama e seu entorno. 

Recursos advindos de convênio da WWF com o CILSJ, para instalar programa de monitoramento do Rio São João, permitiu equipar o Laboratório da Feema – Mra 4 e dar início ao processo de monitoramento da laguna Araruama. 

5 – O controle do Entorno Lagunar 

Buscando disciplinar o uso do entorno foi elaborado um plano diretor para a restinga de Massambaba e implantado por deliberação da CECA. Está em finalizado o plano diretor da Apa de Sapeatiba. Inicia-se a implantação do Conselho Gestor da APA Massambaba e o CILSJ está propondo a captação de recursos junto ao Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) com vistas a obter recursos para demarcar, sinalizar e proteger essa APA. 

Várias solicitações foram feitas pelas ong’s para defender essa APA. A FEEMA MRA-4, acompanhada de vários órgãos e entidades não governamentais, realiza mutirões para remover barracos de áreas invadidas. Apesar dos esforços os processos de invasão continuam. 

Para maior apoio às ações administrativas, a sociedade militou junto aos órgãos ambientais e de Segurança Pública para a instalação na região de um destacamento do Batalhão Florestal. Através de TAC junto à determinada empresa de loteamento foi possível a destinação de um terreno e a construção de uma sede. Através de pressão junto aos órgãos de Segurança Pública foi instalado em Praia Seca um destacamento do Batalhão Florestal que vem apoiando as ações ambientais de controle das invasões e eventualmente da pesca. A falta de liberação de recursos do FECAM retardou a possibilidade de equipar esse destacamento com recursos de veículo e lancha para dar maior eficiência aos trabalhos de campo. 

6 – Educação ambiental  

Componente importante de todos os programas. Várias Ong’s realizam palestras em escolas e grupos comunitários. Um dos melhores exemplos de ação educativa é a formação de Ecoclubes, um na Praia da Tereza e outro junto à Escola Francisco Paes de Carvalho Filho. As ong’s entendem que sem educação ambiental, em todos os níveis, pouco se pode fazer em defesa do nosso meio ambiente.  

Com o programa de proteção das nascentes, subvencionado pelo Convênio WWF-CELSJ, há recursos para inicio de ações de maior alcance.

ANEXOS: 

            Para melhor conhecimento, anexamos: 

1 – Relatório sintético das questões com envolvimento ambiental de Entidades da Plenária de Ong’s  

2 - Deliberações havidas em reuniões de Plenária das Ong’s. Foram mais de uma centena de resoluções adotadas em 26 reuniões, desde 28/10/1999 até 30/09/2002. 

 

A LUTA CONTINUA

 

Apesar dos avanços, muito há por fazer. A luta deve continuar. solicitamos aos companheiros o máximo empenho para mantermos alto nível de militância ambiental até atingirmos o objetivo: Ver a região dos Lagos minimamente recuperada de ações antrópicas sem controle. 

 

Arnaldo Villa Nova

Presidente da Plenária de Entidades Não Governamentais da região de abrangência do
Consórcio Intermunicipal para Gestão Ambiental das Bacias da Região dos Lagos, do Rio São João e Zona Costeira

Presidente da Ong Viva Lagoa