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Março/07

Lagoa de Araruama

Conclusão sobre mortandade de peixes de janeiro mostra a fragilidade por que passa o ecossistema, e urgência em acelerar os programas de recuperação

No mês de Março, quando se comemora o Dia Mundial da Água (22/03), a revista Cidade trouxe a questão das águas para o tema de sua matéria de capa e entrevistou o Secretário Executivo do CILSJ, Luiz Firmino que traçou um panorama geral sobre a nossa região. Veja abaixo a entrevista concedida a esta revista. 

Luiz Firmino Martins Pereira é Arquiteto Urbanista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, Mestre em Ciência Ambiental pela Universidade Federal Fluminense – UFF, e Doutorando em Geografia na Universidade Federal Fluminense – UFF com extensão na Universidade de Maryland - EUA. Funcionário de carreira da FEEMA, onde trabalhou por vinte anos, dos quais quinze, trabalhando na Agência Regional do Órgão na Região dos Lagos. Atualmente é Secretário Executivo do Consórcio Intermunicipal para Gestão Ambiental das Bacias da Região dos Lagos e Rio São João, organismo de bacia, que coordena a articulação dos projetos de gestão e recuperação ambiental da região. Atua também como Secretário do Comitê de Bacias Lagos São João.

É consultor “ad hoc” da Conservation International para o ecossistema Mata Atlântica, “ad-hoc” do HSBC para o ecossistema Cerrado, conselheiro da Associação Mico Leão Dourado e Secretário Executivo da REBOB – Rede Brasil de Organismos de Bacia.

O trabalho a frente do Consórcio Lagos São João, teve reconhecimento formal em 2003 do programa de água doce do WWF-Mundial, como exemplo de boas práticas de manejo de bacia ao redor do mundo, e serve hoje como estudo de caso para a rede mundial do WWF.

Firmino encontra-se atualmente em Maryland nos Estados Unidos, onde faz a extensão do seu doutorado, estudando como se dá o manejo da bacia hidrográfica da Baia de Chesapeake, de onde falou, com exclusividade, para CIDADE.

O que é o Consórcio Ambiental Lagos São João, do qual o senhor é o secretário executivo?
O Consórcio Ambiental surgiu com base em outras experiências vitoriosas no país, e busca exercer um permanente papel de articulação visando integrar todas as instituições que têm obrigações e interesses nas questões ambientais, sejam elas governamentais ou não. Além disso, por ser composto pelo executivo dos municípios de abrangência, suas decisões têm caráter de pacto regional, o que torna possível realizar coisas antes nunca concretizadas.

As ações em curso hoje na Região dos Lagos, são suficientes para garantir o esgotamento sanitário da região?
São, mas evidentemente em um horizonte de longo prazo, e não poderia ser diferente. Com as dificuldades orçamentárias dos erários públicos, estamos executando uma proposta consistente com princípio, meio e fim. Trata-se da fase I, já implementada e que representa hoje o tratamento em tempo seco de mais de 600 l/s de esgoto na região, a fase II (até 2010) que nos levará a próximo dos 100% em tempo seco, e fase III (2010 à 2023) dedicada à implantação das redes separativas.


Foi anunciado um Plano de Recuperação Ambiental e Saneamento para a Lagoa. No que consiste esse projeto e de onde virão os recursos para implementá-lo?
O plano de recuperação da Lagoa tem duas componentes básicas que todos os estudos até hoje realizados indicam, e não são poucas teses de mestrado e doutorado a respeito: Retirar o esgoto da Lagoa e desobstruir o canal de comunicação da mesma com o mar. Este plano portanto é a materialização de tudo que se discutiu nos fóruns de bacia e que neste momento já estão sendo implementados. Existem outras ações também propostas relativas à conservação e recuperação de faixas marginais, controle e regras para a pesca entre outros.


Um Plano de longo prazo, que envolve vários municípios, pressupõe concordância plena e continuidade de ações por parte dos envolvidos. Acredita que os prefeitos da região já estejam maduros o suficiente para empreender tal tarefa?
Com certeza.Se não estivessem, já teriam desistido de trabalhar a questão de forma consorciada, como vem sendo feita. Esta é uma das virtudes do trabalho consorciado, mudam os governos municipal, estadual ou federal, mas as prioridades e os projetos têm continuidade, pois fazem partes de acordos regionais. Veja que o Consórcio enquanto instituição tem a missão de dedicar-se 24 horas por dia para que tais planos saiam do papel, e mantém-se com uma pequena equipe, pois sua função como já dito, é a permanente articulação, fortalecendo as instituições na ponta. Aquelas que executam as propostas.

Apesar da sensível melhora, ainda existem muitos problemas de abastecimento de água, especialmente nas áreas mais carentes. As concessionárias têm cumprido os cronogramas estabelecidos em contrato?
Em termos de abastecimento de água, as metas estão até acima do pactuado, ocorre que o contrato de concessão previa um crescimento populacional médio de 2% ao ano, e a realidade tem sido pelo menos 3 vezes maior. Por isso mesmo na fase II de obras, a ser iniciada este ano, incluímos a proposta de uma nova adutora, que terá um traçado diferente passando primeiro por Búzios e Unamar e depois vindo para Cabo Frio, São Pedro, Arraial e Iguaba. Esta obra, com previsão de dois anos, colocará a região em situação confortável por um bom tempo, e resolverá de vez problemas como o de Búzios, que fica em fim de linha e recebe hoje 100 l/s de água, e precisaria do dobro disso para resolver de vez a questão.


As dragagens do Canal do Itajuru e alguns outros pontos, que vêm acontecendo através de ações entre prefeituras, governo do Estado e iniciativa privada têm melhorado a situação? Que resultados práticos podem ser citados dessas ações?
E visível a melhora do conjunto de ações, de dragagem e tratamento de esgotos, mas eu diria ainda que a melhora percebida até agora tem mais haver com o tratamento de esgotos, do que com a renovação da água. Melhorou sim a entrada de peixes, alevinos e até do camarão, sumido da Lagoa por mais de 15 anos. Mas o grande salto da dragagem será a remoção do aterro da RJ 140 que estrangulou absurdamente o Canal de Itajurú.


Fala-se, agora, na liberação de mais três milhões para a recuperação da lagoa. O que é possível fazer com esse dinheiro e onde será empregado?
Este dinheiro é oriundo de um grande esforço para trazer para a região recursos de Emenda de Bancada do orçamento Federal. Anualmente os Deputados Federais do Estado do Rio colocam no orçamento federal uma emenda de grande monta (entre 8 e 15 milhões) para recuperação de rios e lagoas no Estado do Rio. Desde 2002, o Consórcio vem protocolando junto a ANA – Agência Nacional de Águas, projetos complementares para a região. Em dezembro de 2005, conseguimos pela primeira vez o empenho de R$ 1,4 milhão para a construção da rampa escada de peixes na Barragem da represa de Juturnaíba e R$ 7 milhões para apoio à dragagem do Canal de Itajurú. Agora, em dezembro de 2006, conseguimos o empenho de R$ 3 milhões, sendo metade para a dragagem da Boca da barra do canal de Itajurú e a outra metade para bombeamento dos efluentes tratados de Iguaba Grande para reuso na área rural. O problema é que estas verbas, que vêm através dos municípios só são liberadas após autorização da CEF, o que não tem sido nem um pouco fácil, dado o número de exigências. A verba de 2005, só agora começa a sair.


Para a recuperação total da Lagoa de Araruama, quanto o senhor estima que seja necessário investir?
Não temos um valor definido, mas asseguro que com a confirmação dos investimentos em curso e propostos neste momento, só faltará a verba para o bombeamento dos efluentes tratados de Cabo Frio, assunto que já vem sendo tratado com o Prefeito Marcos Mendes. Falamos aqui de 7,2 milhões, via SERLA, para dragagens ; 750 mil, via SERLA, para a remoção das estruturas da adutora junto à ponte; 700 mil, via ANA (Agência Nacional de Àguas)/prefeitura, para dragagem do trecho entre o Café da Manhã do Trabalhador e Ponte Feliciano Sodré; 1,5 milhão, via Prefeitura/ ANA, para dragagem da Boca da Barra; 1,5 milhão, via Prefeitura, para o bombeamento do efluente de Iguaba; 50 milhões, via DER (Departamento de Estradas de Rodagem), para a construção da nova ponte e 50 milhões, via Concessionárias, previstos para a fase II do saneamento. O grande problema hoje é que entre a previsão, autorização para gasto, licitações e efetivação do projeto, temos uma demora absurda devida a diversos fatores, entre eles a burocracia excessiva, licenças e trocas de governo. Como podemos ver, não há um valor global custado através de um projeto único. O Consórcio cumpre o seu papel ao conseguir articular e fazer com que as instituições encarregadas apliquem recursos integrando os projetos em prol de um resultado comum, sem que qualquer destes recursos tenha que passar pelo Consórcio.

O sistema de tomada em seco, para coleta de esgotos, levou em conta o aumento populacional e as mudanças no clima, que têm proporcionado mais dias chuvosos do que o habitual?
O sistema de tempo seco levou em conta não só o enorme crescimento populacional, mas também a enorme sazonalidade que afeta a região, tanto que as ETEs (Estações de Tratamento de Esgoto) estão dimensionadas para valores muito maiores que os de dias normais. O resultado é que mesmo em feriados em que a população triplica, as bombas coletam integralmente o efluente que chega a dobrar de volume nestas ocasiões. Quanto ao clima, sem dúvidas as chuvas acima do normal têm provocado falhas no sistema, mas pela média histórica da região, mais cedo ou mais tarde voltaremos a grandes períodos de estiagem característicos. De qualquer forma, mesmo com as chuvas atípicas tratamos 100% do esgoto que iam para as praias em mais de 80% do ano (a previsão seria mais de 95% do ano), e isso é extremamente significativo. Os resultados são tão positivos, que a mudança na lagoa de Araruama e percebida por todos.

O Rio Una não é mais perene. Como solução para manter sua calha de água, pensa-se em transportar os efluentes das Estações de Tratamento de Esgoto para o rio. Essa é uma solução? Essa água é própria para consumo? Como ficaria a vida aquática, ou o rio está morto?
O Rio Una pela total ausência de suas matas ciliares se tornou um rio intermitente, ou seja, só tem água quando chove, e isto é um fato, que inclusive trás problemas como o avanço da língua salina do mar rio adentro. Não é bom para a lagoa de Araruama receber o efluente tratado, pois este ainda contém fósforo e nitrogênio, que são alimentadores das algas, únicas plantas que a Lagoa possui. Na bacia do Una, este fósforo e nitrogênio seriam facilmente absorvidos pela vegetação dos brejos, ainda abundantes ao longo do rio, são as chamadas “wetlands” (Sistema construído artificialmente, em países desenvolvidos, para auxiliar no tratamento). Seria mais que isso, uma importante fonte de riqueza para agricultura permitindo a irrigação, e seria não menos importante para o rio em si, pois expurgaria a língua salina que avança a cada dia. Portanto, falamos de um projeto que proporcionaria vários benefícios.


A região possui reservas subterrâneas de água? Estão mapeadas?
A Universidade Federal Fluminense, através do projeto RESUB – Rede de Águas subterrânea monitorou nossa região por vários anos, e constatou a alta salinidade das águas subterrâneas, excluindo possibilidades de aproveitamentos potencias.


A mortandade de peixes tem sido uma constante na lagoa de Araruama. A quê o senhor atribui esse fenômeno?
A Lagoa de Araruama sofreu até 2004 (inclusive) com a falta total de saneamento, toneladas e mais toneladas de fósforo e nitrogênio foram lançadas em suas águas, e hoje são responsáveis pela alta proliferação de algas, que modificaram a cor da Lagoa. Temos ainda lodo depositado no fundo, e ainda alguns despejos significativos, e portanto condições para, volta meia, assistir a queda de oxigênio quando uma conjunção de fatores se manifesta ao mesmo tempo, como aconteceu recentemente, com temperatura elevada (verão), chuvas fortes lavando literalmente o solo da região para dentro da lagoa, falta de vento, que juntos provocaram a queda a zero do oxigênio. Precisamos compreender que ecossistema como o da Laguna de Araruama é único, sensível e que requer cuidados especiais, ou seja, a menor perturbação possível. Se fizermos a nossa parte interrompendo as agressões, a laguna responderá e voltará a ser aquela que todos conhecemos e apreciamos.

Fonte: Revista Cidade Nº 11 / Março 2007
www.revistacidade.com.br
 

Secretaria Executiva do CILSJ
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