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Setembro/Outubro/08
Disputa na Lagoa
Pescadores de São Pedro da Aldeia querem que a salina Mossoró,
da família Yamagata, rompa os marnéis de sal da Lagoa de
Araruama, devolva o espelho d'água e libere a área para a pesca
profissional
A
área de mais de um milhão de metros quadrados de espelho
d’água é utilizada pela indústria salineira desde a década de 50
e passou pelos altos e baixos da produção de sal na Região dos
Lagos. A salina, afirmam os pescadores, teria ficado desativada
por muitos anos. Em 2002, entretanto, foi arrendada para a Sal
Cisne que produz salmoura na salineira centenária. Os pescadores
alegam ter prioridade para a pesca na lagoa e a indústria quer
continuar produzindo sal.
O impasse chegou ao Comitê de Bacia
Lagos São João, em reunião extraordinária em agosto (08/08), no
Hotel Serra da Castelhana, em Bacaxá. A questão será avaliada
por um grupo de conciliação de interesses e só então entrará em
votação no Comitê.
Nessa disputa, de um lado está a Colônia de
Pescadores Z-6, de São Pedro da Aldeia, liderada por Haroldo da
Rosa Pinheiro Sobrinho, somado a outros profissionais de pesca;
do outro, Sérgio Kunio Yamagata, proprietário da Salina Mossoró
e também vice-presidente do Sindicato das Indústrias
Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico no Estado do Rio
de Janeiro, respaldado pela Refinaria Nacional do Sal, leia-se
Sal Cisne. Numa discussão acirrada, que exigiu pulso firme do
presidente do Comitê de Bacia, Waldemir Demaria e do secretário
executivo do Consórcio Intermunicipal Lagos São João (CILSJ),
Mário Flávio Moreira, com intervenção do representante do
Governo do Estado no Comitê e presidente da Fundação
Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (Serla), Luiz Firmino
Pereira, os dois grupos apresentaram seus argumentos para
utilização da lagoa naquela área.
“Nosso avô já comprou a área de outros salineiros. A salina
existe há mais de 100 anos. Na década de 50 tivemos autorização
para a construção dos marnéis, que originalmente tinham três
divisões, e, hoje, tem apenas uma. Nossa salina entrou em
decadência, sim. Mas nunca paramos a atividade. Se tivéssemos
uma ilegalidade teríamos que devolver, mas estamos com a salina
ativada”, argumenta Sérgio Yamagata,
referindo-se aos bons tempos da indústria salineira na Região
dos Lagos. Época em que mais de 120 salinas dominavam o cenário
na laguna. Hoje, somente cerca de 15 salineiras ainda estão
ativas, entre as quais a Salina Mossoró, da família Yamagata.
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Aroldo Sobrinho
e pescadores da Z-6 |
Os
pescadores admitem que arrombaram os marnéis e estão pescando na
área. Numa avaliação leiga, afirmam que o grau de salinidade no
marnel não seria superior ao da lagoa, e, por isso o uso da
grande área pela salineira não se justifica, enfatiza o
presidente da Colônia Z-6 Haroldo Sobrinho. “Estamos pedindo que
nos devolvam o que é nosso. Estamos lutando para retirar os
marnéis há muito tempo. Não só dali como os de outras empresas,
a Perynas e a Sal Cisne, esta última tem até uma pista de pouso
dentro da lagoa”, reclama. De acordo com ele, três partes nos
marnéis da Salina Mossoró já foram arrombadas e os pescadores
estão lá dentro com ganchos, pesca de arrasto e de malha para
peixe. O que demonstra que a Lagoa de Araruama, em fase de
franca recuperação, está prá peixe.
Criadouro
“A pesca está crescendo.
Ali é um criadouro. Onde antes não se produzia pescado hoje se
produz. O marnel está com três partes quebradas, o pescador está
lá dentro e ninguém se importou com isso porque não tinha
utilidade para eles. Como o Sal Cisne arrendou a salina agora
querem fechar tudo. Uma prova que a atividade é secundária para
a família Yamagata”, dispara Haroldo Sobrinho. Outros pescadores
– Israel da Silva, Gilberto Trindade e Valdeci Oliveira -
engrossaram o coro da Colônia Z-6 pela “liberdade” da lagoa
durante a reunião. Eles querem que a Salina Mossoró fique apenas
com uma pequena parte e devolva o espelho d’água da lagoa na
maior parte da área. O coordenador de Salinas da Sal Cisne,
Demerson Silas Rijo Ferraz, explica que mesmo identificando o
arrombamento provocado nos marnéis, o reparo não foi feito para
evitar atritos maiores com os pescadores. Garante que apesar do
rompimento em alguns trechos, o marnel Yamagata apresenta
salinidade superior ao da lagoa em 1,0 a 1,5. O que, segundo
ele, equivale de 10% a 20% a mais de salinidade no marnel em
relação à laguna.
Rompimento de contrato
| Em 2007 no processo de
evaporação de sal, que é a primeira etapa da extração do sal
marinho, a Sal Cisne produziu na Salina Mossoró sete mil
toneladas de sal. Pelo tamanho da salina, no entanto, teria
potencial para produzir de 15 a 20 mil toneladas/ano. Demerson
Ferraz reconhece que o marnel está operando de forma deficiente.
Mas alega que “mesmo assim se produz mais ali do que em outras
salinas”. Esclarece que a meta de produtividade ainda não foi
atingida pela Sal Cisne em função das intempéries, como o
excesso de chuvas e também pelos arrombados no marnel. Ele foi
incisivo ao dizer que a Refinaria Nacional do Sal não hesitará
em romper o contrato com a Salina Mossoró se o marnel for
retirado. “A quebra do marnel é acabar com a salina. A Refinaria
Nacional tem o planejamento de médio e longo prazo para atingir
as metas necessárias ao equilíbrio econômico/financeiro de suas
atividades. A retirada deste marnel implica em quebra de
contrato, por inviabilizar o seu projeto e objetivo, e quem
perde é a cidade, já que os impostos são revertidos para o
município”, enfatiza Demerson Ferraz. |
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Demerson Ferraz
com Sérgio Yamagata |
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Sérgio Yamagata destaca
que o marnel está fora da área 2 da lagoa demarcada para a pesca
pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA). Diz que a
permanência do marnel é vital, estratégico e necessário para o
aumento da produção de sal. Ressalta ainda, que na área da
Salina Mossoró, está o Instituto Tecnológico Marinho – IMAR, com
produção de artêmia (comida de camarão em cativeiro) e o projeto
da Escola de Maricultura, que visa dar sustentabilidade para as
atividades pesqueiras em benefício da comunidade. A presidente
do IMAR, Margarida Bartolomeu defende a permanência do marnel
como preservação da área, do potencial da maricultura na região
e da qualidade dos parâmetros físico-químicos da água na lagoa.
Já a ONG Viva Lagoa se alia à Colônia de Pesca e também quer a
devolução do espelho d’água na maior parte do marnel. O
vice-presidente do Comitê de Bacia e presidente da ONG, Arnaldo
Villa Nova, considera que no passado houve um exagero na
construção de marnéis na lagoa. Para ele, os imensos marnéis
ocupam um espaço que impede a circulação da água e a reprodução
dos peixes. Ele propõe que a Sal Cisne continue sua produção na
área próxima à Escola de Maricultura, onde, na avaliação dele,
existem um dique e tanque com capacidade para estocar água
salina para a produção de sal. Para alimentar os tanques de
cristalização, explica, a Salina Mossoró teria que construir um
duto de cerca de 300 metros. “Entendo que a indústria do sal é
boa, mas tem que ter marnel adequado. Nem mais nem menos. Quero
a lagoa livre, leve e solta”. Ele sugere que seja feito um
estudo técnico acompanhado por agentes do governo estadual para
verificar os graus de salinidade dentro e fora do marnel Yamagata. Para Sérgio Yamagata é preciso chegar a um consenso.
“Estamos tentando evitar um conflito de interesses e queremos
achar uma solução que contemple as três atividades (salineira,
pesca e Escola de Maricultura)”, pondera ele. |
Se haverá consenso,
ninguém pode prever, mas o impasse será discutido agora num
grupo menor envolvendo os três segmentos. Em novembro a questão
será levada a julgamento pelos 54 integrantes do Comitê de Bacia
Lagos São João.
Fonte:
Revista Cidade -
www.revistacidade.com.br
Texto e fotos Loisa Mavignier
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