Regiões e Bacias Hidrográficas

 

Assoreamento e Erosão

 

A lagoa de Araruama apresenta em sua costa processos litorâneos semelhantes aos que ocorrem em praias de mar aberto, observando-se uma constante movimentação de sedimentos ao longo da orla. Evidentemente, a magnitude destes processos é menos intensa. Apesar da variação de maré ser desprezível no interior da lagoa e das ondas serem de baixa estatura, o transporte litorâneo de sedimentos ocasionado por essas ondas é considerável, devido principalmente a constância dos ventos. Estudo na praia dos Nobres, localidade de Praia Seca, detectou que as correntes empurram anualmente em torno de 7.000 m3 de sedimentos, ocorrendo o fato no sentido negativo, ou seja, da direita para esquerda de um observador que esteja olhando para a água.

 

O assoreamento é um fenômeno natural das lagoas costeiras. Todas tendem a desaparecer ao longo de milhares de anos. Ocorre que na lagoa de Araruama este processo tem sido acelerado devido às obras costeiras mal feitas, aterros, remoção da vegetação das restingas de Massambaba e Cabo Frio e o desmatamento da bacia.  Os aterros foram implementados basicamente nas décadas de 60, 70 e 80, sem contar aqueles mais antigos efetuados por salinas

 

O assoreamento da lagoa, embora nítido em alguns locais, é pouco estudado, a exceção do canal do Itajuru. Neste canal, estimativas feitas no inicio da década de 90 apontam que a taxa de assoreamento teria se elevado à razão de 1,2 cm/ano com menor valor (0,5 com/ano) no eixo principal. Os sucessivos aterros das margens reduziram a seção transversal, o que acarretou maior velocidade da corrente de maré. Os reflexos podem ser observados nos processos erosivos que ocorrem as suas margens, rompendo diques marginais e solapando ruas. Por outro lado, as dragagens para a realização de aterros aprofundaram o talvegue, colocando em disponibilidade uma camada de sedimento muito fino. Em decorrência dessas intervenções, uma grande quantidade de material em suspensão passou a transitar e, por força do transporte em direção a lagoa, formou-se um delta no local conhecido como Baixo Grande.

 

Infelizmente, até o momento o CILSJ não encontrou cartas batimétricas do inicio do século XX retratando o corpo principal da lagoa, para comparar com as atuais. Porém, relatos e obras antigas mostram que o problema do assoreamento não é recente. Ele foi um dos motivos da construção dos canais Palmer e do Mossoró. 

 

O Barão de Teffé e o Coronel Mello e Alvim conduziram as obras de desobstrução da foz do canal de Itajuru entre os anos de 1877 a 1880. Consta que sob o comando do Barão foram retiradas 19 toneladas de pedras submersas da barra, lançadas pelos portugueses em 1615 para evitar que navios piratas atracassem no local com a finalidade de embarcar pau-brasil.  

 

Euvaldo Nina, engenheiro que trabalhava na “Inspectoria Federal de Portos e Costas” realizou um 1923 um levantamento sobre o assunto, constatando que desde 1858 existiam grandes dificuldades para a navegação interna devido ao assoreamento. Para equacionar o problema dos canais assoreados e desobstruir a barra da Gamboa, houve projetos por parte dos engenheiros Stevaux (1858), Bellegard, Lerger Palmer (1875), Barão de Teffé e Coronel Mello e Alvim. Nenhum destes estudos e projetos foi encontrado até o momento pelo CILSJ. Nina cita que um dos melhoramentos propostos por Stevaux e mais tarde executado pelo engenheiro Bellegard foi o fechamento da “barra velha”, “barra ocidental, entre o morro dos Indios, por nós chamado de Morro do Barracão, e a ponta da Cruz, limite leste da fralda do morro do Arpoador, fechamento feito por uma muralha entre a esplanada das antigas fortificações e Morro do Barracão”. A localização e o significado da “barra velha:” a que se refere Nina permanece um enigma para o CILSJ. Técnicos do Consórcio tem tentado decifrá-lo.

 

Em 1930 os engenheiros Mário Pinto e Raymundo Filho, ambos no Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, voltarem a estudar o problema. No magnífico trabalho “A Indústria do Sal do Estado do Rio”, ao fazerem uma pormenorizada descrição da lagoa comentam que “são esses bancos movediços que crescem ou se transladam de ano para ano sensivelmente num trabalho contínuo de aterramento, o grande obstáculo para a navegação franca dentro da lagoa”. Em 1915, o Governo do Estado criou uma sobretaxa ao imposto do sal, visando arrecadar recursos para financiar as obras de dragagem nos assoreados canais de navegação.

 

A principal causa de assoreamento da lagoa prende-se ao avanço dos esporões que partem da restinga de Massambaba de encontro à margem oposta. Com base no exame de imagens de satélite, Mauro Argento e Mônica Coimbra, pesquisadores do Departamento de Geografia da UFRJ identificaram em 1989 dois tipos de esporões: emersos e submersos. O segundo foi dividido em raso, até a profundidade de 1m e fundo, acima de 1m. Comparando imagens de satélite de 1976 e 1987, constataram um notável crescimento dos esporões.

 

O quadro a seguir ilustra o problema.    

 

CRESCIMENTO DOS ESPORÕES ENTRE 1976 E 1987

ESPORÃO

SUPERFÍCIE (km²)

EM 1976

SUPERFÍCIE (km²)

EM 1987

VARIAÇÃO (%)

Emerso

1.434

1.596

11,

Submerso Raso

22.658

31.634

44

Submerso Fundo

11.673

22.011

89

Fonte: Argento e Coimbra, 1989

 

Os esporões crescem do fundo para a superfície, através de sucessivas camadas de areia que são construídas pelas correntes e ondas, principalmente pelas correntes de fundo. À parte emersa, portanto, constitui apenas a parcela visível de um longo processo natural, acelerada pelo suprimento maior de areia. A origem do material que alimenta o crescimento destes esporões parece ser a areia fornecida das restingas de Massambaba e Cabo Frio, que são arrastadas pelos fortes ventos para dentro da lagoa. Deste modo, às correntes tem um suprimento constante de material para transportar e depositar, fazendo crescer os bancos de areia e os esporões. A erosão das margens da lagoa também fornece material. A retirada da vegetação que fixa a areia das restingas pelas empresas loteadoras tem aumento a oferta de areia. Superfícies antes protegidas agora ficam expostas ao vento.     

 

As constantes dragagens para extração de conchas podem também ter favorecido o avanço dos esporões, pois ao revolverem o fundo, colocaram sedimentos em disponibilidade para serem transportados. Estudos da CNA indicam que dependendo das condições de vento e corrente, os sedimentos lançados na coluna d’água após o peneiramento da concha podem se depositar até 1,5 km do local de origem.

 

O desgaste dos solos da bacia hidrográfica na parte norte aparentemente contribui pouco para o assoreamento da lagoa. O relevo da bacia não é acidentado, a pluviosidade é baixa e os rios tem capacidade reduzida de transportar as partículas provenientes dos solos erodidos. Mas é um aspecto que merece ser melhor analisado, principalmente nas sub-bacias dos rios Mataruna e das Moças. Na foz deste último pode-se ver grande um banco de areia construído com os sedimentos lançados na lagoa. 

 

Nas últimas décadas, aterros e obras realizadas nas margens da lagoa tem provocado sérias alterações na orla. Praticamente todas as praias apresentam problemas erosivos causados por obras mal feitas por particulares ou por salinas. Na maioria delas a erosão é notada em pontos afastados entre si, como na praia do Sudoeste em Arraial do Cabo. Nela, toda embocadura de canais de alimentação de salinas encontra-se erodida. Em outras, o problema afeta toda a praia. Engordamentos de praias também tem sido observados.

 

Os trechos mais afetados pela erosão na lagoa são:

 

Orla Norte:

·           trecho entre as pontas da Venda e do Anzol;

·           segmento em frente ao Clube Náutico  de Araruama, desde a Pontinha;

·           praias do Barbudo e Gavião nas imediações da foz do rio Salgado;

·           praias do Lake View e São Pedro

·           praias do Arrastão e Brava, na península de São Pedro da Aldeia;

Orla Sul:

·           costa da enseada de Praia Seca, ao sul da ponta das Marrecas;

·           praia dos Nobres;

·           trecho da praia da Figueira em frente a área urbana de mesmo nome;

·           trecho da praia de Monte Alto em frente a área urbana de mesmo nome

 

Os segmentos mais críticos ficam em Arraial do Cabo, nas praias da Figueira e em Monte Alto. A invasão da orla desfigurou a paisagem. Até a estrada RJ-102, assentada sobre uma duna baixa,  contribuiu para a erosão da orla de Monte Alto. Dieter Muher, pesquisador da UFRJ chamou atenção ainda para o processo erosivo que esta ocorrendo nas praias da enseada do Rebolo, onde a restinga perdeu cerca de 250 m de largura.

 

O texto a seguir analisa as principais causas da erosão acelerada da orla da lagoa, apoiando-se para tanto no diagnóstico feito pelo Engenheiro Carlos Hansen em 1993, em tese defendida na COPPE.

 

Obras de Proteção Costeira

 

Implantadas sem qualquer fundamento técnico, é possível observar uma grande quantidade de espigões e marachas. Trata-se de obras que tem por finalidade reter sedimentos em trechos de praia.

 

As marachas são construídas com pedras, troncos e estacas, em geral de casuarinas, e posicionadas perpendicularmente as praias. Já os espigões são basicamente de pedra ou concreto e colocados na mesma posição das marachas. Processos erosivos ou de deposição significativos causados por estes tipos de obras podem ser observados em diversas locais como às praias Linda, dos Nobres, Lake View, Monte Alto e Figueira. Em frente ao condomínio Vila d’Itália, na localidade de Praia Seca, um espigão promoveu um notável engordamento da praia das Virtudes, as custas da erosão de outras situadas na vizinhança. Freqüente é a erosão na embocadura de canais utilizados para a alimentação de salinas.

 

Outra obra comum é o muro de proteção, uma estrutura posicionada paralela à praia com a finalidade de proteger a costa contra o ataque das ondas e/ou elevação do nível da água ou propiciar a retenção de aterros. Exemplo pode ser encontrado nas proximidades da ponta da Venda, pouco depois da praia do Hospício. Neste local, o muro foi colocado de forma errada, amplificando a altura das ondas por reflexão, o que fez que elas carregassem o sedimento ao largo. Como o muro bloqueou o transporte de sedimentos, as ondas erodiram o sopé da estrutura, descalçando-a e causando uma ruptura parcial. Além disso, passou a ocorrer erosão na praia adjacente.  Muro em ruína aparece também na praia ao lado do Condomínio Cabanas Park e outros locais. Afora as obras mencionadas, diversos outros materiais são utilizados na tentativa de evitar a erosão, na maioria das vezes sem qualquer resultado prático. Dentre eles mencionam-se manilhas de cimento amianto, pedras empilhadas, pneus (ponta das Coroinhas) e sacos de conchas (Figueira).  Na medida em que uma obra de proteção apresenta resultados, seu uso rapidamente se espalha, até que seus efeitos, efêmeros, a descaracterizem, surgindo novas soluções paliativas.

 

Obras de saneamento

 

Manilhas de água pluviais que adentram a lagoa bloqueiam o transporte de sedimentos e acarretam acréscimo de um lado e erosão do outro, como ocorre, por exemplo, nas praias de Araruama e dos Nobres.

 

Obras de acostagem

 

Em vários locais na orla da lagoa há cais, aqui designados como qualquer estrutura utilizada para amarração e/ou atracação de embarcações, carga e descarga ou para embarque de passageiros. Depara-se novamente com obras mal feitas, que interferem no transporte de sedimentos, o que ocorre, por exemplo, no Condomínio Aldeia 99 e no Clube Náutico de Araruama.  Piers de madeira, um tipo de cais com pilares, também tem alterado o transporte de sedimentos. Via de regra, nota-se um assoreamento na base, junto à praia. Em piers não vazados ocorre um impacto semelhante aos descritos para os espigões e marachas, fato que pode ser constatado nas praias Linda, de São Pedro (em frente à Base Aeronaval), no Clube Náutico de Araruama e na praia da Tereza.  Impactos iguais são causados pelas rampas para barcos construídas em concreto, que atuam como obstáculo que impede a passagem de sedimentos, erodindo a praia.   

 

Dragagem

 

A dragagem realizada para a extração de conchas, ao modificar a profundidade dos locais onde é realizada, pode provocar alterações nas correntes, afetando o transporte de sedimentos e causando mudança na morfologia das praias. Dragagens mal feitas no baixo curso de rios podem também afetar a costa, pois estas áreas devem funcionar como fonte de sedimentos para trechos adjacentes da orla. Nestes casos, a modificação morfológica do fundo pode acarretar erosão na orla. Provavelmente, isto é o que acontece na foz do rio Salgado, onde se observa erosão de praia e destruição parcial do muro de proteção. Por vezes, buracos escavados para retirada de areia funcionam como sumidouros de sedimentos, desequilibrando o transporte dos mesmos, como na Pontinha e na praia dos Nobres, onde houve erosão da praia por este motivo.  Um grande buraco pode ser detectado na enseada de Tucuns, em frente ao Aeroporto de Cabo Frio. O material arenoso para construção do aterro do aeroporto foi extraído do fundo da lagoa de Araruama. A dragagem foi efetuada na enseada de Tucuns, em uma área de 500 x 500 m. A espessura de material dragado atingiu de 1,5 m a 3 m, totalizando 350.000 m³.

 

 

 


© Consórcio Intermunicipal para Gestão Ambiental das Bacias da Região dos Lagos, do Rio São João e Zona Costeira
CNPJ 036.612.270/0001/41

Todos os direitos reservados. All rights reserved.