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Tucunaré
- O perigo da introdução criminosa
e ilegal na
represa de Juturnaíba
Alerta
à comunidade
Ultimamente,
tem chegado a Secretaria-Executiva do Consórcio, denúncias
dando conta de novas solturas ilegais de filhotes de
tucunaré na represa de Juturnaíba. De modo a alertar
aos associados do Consórcio e a comunidade sobre os
riscos envolvidos nesta atitude irresponsável e
criminosa, preparamos este esclarecimento público com
apoio de nossos voluntários.
O
que é o tucunaré?
O
tucunaré é um peixe pertencente à ordem Perciformes
e à família dos Ciclídeos, que reúne mais 400 espécies
em toda a América do Sul, dentre eles os acarás,
cabos-de-foice e muitos outros. Especialistas
reconhecem nesta região cerca de 14 espécies de
tucunarés, sendo que até o momento apenas cinco
receberam um nome técnico. Todos eles pertencem ao gênero
Cichla.
Dependendo
da espécie, recebem diversos nomes populares como
tucunaré-açu, tucunaré-paca, tucunaré-pinima;
tucunaré-pitanga; tucunaré-vermelho; tucunaré-pretinho;
tucunaré
borboleta e tucunaré azul e amarelo.
No exterior é conhecido como “peacock
bass”.
Qual
é o tipo de tucunaré que lançaram na represa de
Juturnaíba e de onde ele é originário?
O
tucunaré lançado na represa é o tucunaré-açu ou
paca (Cichla
sp, muito
provavelmente C.
monoculus),
cujo
habitat é a bacia do rio Amazonas. Os filhotes lançados
na represa foram comprados muito provavelmente em
alguma fazenda de piscicultura no Estado do Rio, ou
mesmo em Minas Gerais ou São Paulo.
Como
posso identificar o tucunaré adulto?
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A
foto ao lado dá uma boa idéia de como ele é.
A principal marca é a pinta que ele tem na
base da nadadeira caudal.
Os
machos na época de reprodução mostram um
caroço na testa e tendem a perder as quatro
linhas do corpo. Enquanto que nos demais períodos
elas aparecem reforçadas. Quanto às fêmeas,
elas sempre têm essas listas. A
tonalidade de suas barras verticais pode
variar de intensidade em frações de tempo da
ordem de milésimos de segundo.
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Como
posso identificar os filhotes de tucunaré?
Quando
os filhotes nascem eles têm três pintas pretas ao
longo do corpo, que após algum tempo passam a uma
linha contínua. Apenas quando vão se tornando
maiores (acima de alguns centímetros) eles começam a
formar as barras verticais. Aliás, o pigmento dessas
barras varia em função do estado de espírito do
peixe. Quando as condições são bastante satisfatórias
elas são bastante ressaltadas.
Qual
o tamanho e o peso que atingem?
Normalmente
atingem de 50cm ou 60cm, mas já foram encontrados
exemplares com mais de 70cm. O peso fica entre 3kg e
10kg. Há registros de tucunarés com mais de 1m e até
12 kg, que parece ser o record. Nas
represas do sudeste do país, todavia, apenas o azul e
o amarelo são abundantes, e o peso médio dos peixes
é de 1 a 3 kg., tendo notícias de peixes de até 7
kg.
O
tucunaré é migrador? Qual é seu habitat preferido?
O
tucunaré é uma espécie territorial e sedentária, não
realiza migrações. Na
Bacia Amazônia, quando os rios estão com as águas
baixas, habitam principalmente as lagoas marginais,
partindo para a mata inundada (igapó ou mata de várzea)
durante as cheias. Nas lagoas, durante o início da
manhã e final do dia, quando a água já está mais
fria, se alimentam próximo às margens. Quando a água
esquenta, passam para o centro das lagoas.
O tucunaré não aprecia águas correntes.
Em rios pode ser encontrado em remansos. Nas
represas prefere viver junto as margens, nos locais
onde podem ser encontradas “tranqueiras”, que no
linguajar dos pescadores, são galhadas, plantas
flutuantes e outras estruturas submersas que foram um
refúgio. Em
represas do estado de São Paulo, pescadores notaram
um comportamento peculiar: a
quase total falta de tucunarés grandes nas margens
quando estas estão coalhadas com filhotes da espécie.
O
tucunaré é diurno ou noturno?
Têm
hábitos diurnos. O
tucunaré dorme rente ao chão e apenas quando está
escuro.
O
que ele come?
O
tucunaré é um peixe voraz, que ocupa os níveis
superiores das cadeias alimentares dos rios.
Alimenta-se de peixes adultos, filhotes, pitus e
provavelmente toda sorte de insetos e aranhas que
caiam na água. São caçadores ativos que perseguem
a presa, ou seja, após iniciar o ataque, não
desistem até conseguir capturá-las. Pescadores
artesanais da represa de Três Marias, no rio São
Francisco, citam que o Tucunaré come todos os outros
(peixes). Pescadores experientes afirmam que
a melhor época para a pesca do tucunaré é no período
de desova, pois é nessa época que eles se encontram
mais ariscos atacando a iscas por alimento, assim como
por defesa dos filhotes.
O
tucunaré é canibal, ou seja, como os próprios
filhotes?
Apenas
involuntariamente, quando não reconhece os peixes da
mesma espécie. Quando o filhote cresce e aparece a
mancha redonda da cauda não há mais canibalismo.
O
tucunaré vive em cardumes ou é solitário?
Quando
os peixes são pequenos, os cardumes são muito
grandes. Ao atingirem um tamanho médio, o número
passa a ser da ordem de duas dezenas ou pouco mais. Já
adultos, em fase de acasalamento ou não, andam
sozinhos ou em pares.
Como
se comportam os tucunarés na fase do acasalamento?
Os
tucunarés fazem uma espécie de ninho utilizando
pequenas pedras. Normalmente a fêmea fica tomando
conta do local, enquanto que o macho circula em volta
para evitar a entrada de intrusos no seu raio de ação.
Os filhotes de tucunaré são protegidos pelos pais até
atingirem aproximadamente dois meses de idade e um
comprimento médio de 6cm. Enquanto estão protegidos
pelos pais, os alevinos não possuem a pinta na cauda,
uma das características mais marcantes no tucunaré.
Nessa ocasião, predomina uma faixa preta longitudinal
ao longo do corpo. Apenas quando se separam, começam
a aparecer tanto a pinta como as listras verticais.
Nesta ocasião habitam as vegetações nas margens. Os
filhotes, após serem abandonados pelos pais seguem
aos milhares, em cardume, para regiões de águas
quentes se protegendo em locais de densa vegetação.
Quando
eles se reproduzem?
Estudos
têm mostrando que o período de reprodução do
tucunaré é longo. Nos açudes do nordeste, há um
pico de reprodução, que ocorre no inverno, quando as
águas dos açudes ficam menos quentes.
O
Consórcio conhece as razões porque o tucunaré foi
introduzido?
Sim.
O tucunaré foi introduzido porque ele tem um carne
excelente e apresenta qualidades para a pesca
esportiva. Por isso, ele tem sido introduzido em diversas
regiões no Brasil e no exterior, na maioria dos casos
sem qualquer fundamento técnico. É uma espécie
brasileira importantíssima no seu habitat e para a
economia do povo da Amazônia. Quem o introduziu muito
provavelmente é pescador esportivo, esclarecido, que
sabia o que estava fazendo, egoísta e irresponsável.
Quais
são os riscos de se introduzir o tucunaré na represa
de Juturnaíba?
A
introdução de peixes exóticos, assim chamados pelos
biólogos os peixes que não pertencem à bacia onde são
introduzidos, é uma atitude que requer anos de
estudos para se checar sua viabilidade.
Jamais pode ser feita “a Bangú”. Os
cientistas têm detectado as seguintes conseqüências:
(1) extinção de peixes nativos por predação ou por
competição por espaço ou alimento;
(2) fracasso da introdução, o peixe exótico não se
estabelece;
(3) coexistência, quando a espécie introduzida
consegue se estabelecer e conviver com os peixes
nativos, embora os prejudicando de alguma forma.
Todavia,
é muito comum a ocorrência de desastres. Os exemplos
são muitos. Vamos citar alguns. No lago Vitória, na
África, os peixes nativos têm sofrido um processo de
extermínio em massa porque o governo de Uganda, em
1920, introduziu a perca-do-Nilo, um peixe que chega a
dois metros e 180 quilos. Nos locais onde a pesca se
tornou dominante, mais da metade dos peixes
desaparecem, para desespero dos pescadores locais. No
lago Titicaca, na Bolívia e Peru, introduziram a
partir de 1942 várias espécies de trutas. Já na década
de 1970, duas das mais valiosas espécies nativas do
lago haviam sido praticamente extintas devido a predação
e a competição por alimento. Parasitas que vieram
junto com as trutas ajudaram a diminuir drasticamente
várias outras espécies nativas. Os pescadores
locais, acostumados a pescar por gerações os peixes
nativos se viram prejudicados.
Voltando
ao tucunaré, o risco principal é a redução drástica
dos peixes nativos do rio São João, seja através da
predação, seja através da introdução de doenças.
No Panamá, o tucunaré foi introduzido no lago Gatum
nos anos de 1960. Em 1972, um estudo mostrou que ele
tinha sido responsável pela drástica diminuição de
50% dos peixes nativos. Em 1986 ele já era a espécie
dominante. Solto nas represas de Furnas e Marimbondo,
na bacia do Paraná, em pouco tempo se tornou o peixe
dominante. Nos Estados Unidos, o tucunaré foi
introduzido na Califórnia e na Florida. Naquele
primeiro Estado, ele levou consigo um verme que
parasita a brânquia dos peixes, disseminando um
parasita que antes não existia. Por fim, o tucunaré
não vai ficar restrito a represa, vai se espalhar rio
acima e rio abaixo e entrar nos afluentes.
Introduzir
tucunaré na represa pode prejudicar o projeto
Piabanha, executado pelo IBAMA e pela Prefeitura de
Casemiro de Abreu?
Claro
que sim. Mas não é só a piabanha. Muitos outros
peixes podem ser dizimados. Os filhotes de piabanha
que forem soltos no rio poderão servir de alimento
para o tucunaré e todo o esforço do IBAMA e da
Prefeitura de Casimiro de Abreu pode ser perdido. Não
vamos fazer papel de bobo. Vamos exigir desta pessoa
que introduziu o tucunaré, na surdina, uma reparação
financeira por todo o investimento perdido. O rio São
João já foi bastante degradado pelas obras do DNOS,
pela implantação da represa, pelos areeiros e pela
retirada da mata ciliar. Agora, para completar, ainda
lançam tucunarés.
Pela
lei é proibido soltar filhotes de peixes em nossos
rios e lagoas sem autorização do IBAMA ou do IEF?
Sim,
de acordo com o art. 34 do Decreto-Lei 221/67 (Código
de Pesca), "é proibida a importação ou exportação
de quaisquer espécies aquáticas, em qualquer estágio
de evolução, bem como a introdução de espécies
nativas ou exóticas, nas águas interiores, sem
autorização do IBAMA".
E
agora que os tucunarés estão na represa, o que o
CILSJ pretende fazer para controlar?
A
eliminação total do Tucunaré será uma tarefa quiçá
impossível. Mas pretendemos, junto com o IBAMA, as
Prefeituras, os pescadores e a comunidade, traçar uma
estratégia que pode envolver as seguintes ações,
objetivando manter os tucunarés em quantidades
reduzidas.
1.
Solicitação de abertura de inquérito criminal junto
a Polícia, para apurar os responsáveis pela introdução;
2.
Estabelecer com as Prefeituras de Araruama e Silva
Jardim e o Batalhão Florestal um patrulhamento
constante na represa e nos rios;
3.
Implementar um programa de acompanhamento biológico,
através de pescadores sentinelas, que irão capturar
tucunarés, fazer medições, retirar os estômagos e
passar os dados e o estômago para os cientistas do
governo, após serem treinados por estes;
4.
Conhecer a biologia do tucunaré na represa – o que
comem, onde vivem, épocas e locais de procriação,
etc.
5.
Capturar os filhotes nas margens das represa na época
certa, com puçás e redes de malha fina, com apoio da
comunidade;
6.
Pôr estruturas (galhadas, etc) na margem da represa
que atraiam o tucunaré para desovar nestes locais e,
no período de desova, baixar o nível da represa para
expor os ovos ao sol e matá-los por ressecamento,
como se faz na Rússia para controlar espécies exóticas;
7.
Liberação total da pesca, podendo-se capturar o
tucunaré de qualquer tamanho e em qualquer época do
ano;
8.
Realização de torneios de pesca para captura maciça;
9.
Mobilização da comunidade para denunciar novas
solturas;
10.
Contratar pesquisa sobre doenças exclusivas de
tucunarés, para que se tente no futuro o controle
biológico através da disseminação de micróbios
que causem a morte ou a esterilização de tucunarés
sem afetar outras espécies de peixes e ser inócua
para os seres humanos e demais organismos.
O
Consórcio tem feito algo pelos peixes nativos do rio
São João?
Sim.
Para favorecer os peixes e a pesca, o Consórcio optou
por fazer a melhoria do habitat. Melhorando o habitat,
ou seja, a casa dos peixes, os rios, a tendência será
a recuperação dos estoques. Estamos atacando em duas
frentes: renaturalização e construção da escada de
peixes.
A
renaturalização envolve refazer os meandros do rio,
construir lagoas marginais e reflorestar as margens.
É uma tecnologia que aprendemos com a Agência Alemã
de Cooperação Técnica – GTZ. Para tanto, com
apoio da WWF-Brasil, contratamos vários cientistas e
engenheiros da UFF que estão fazendo os estudos
necessários. Será um projeto pioneiro no Brasil. A
renaturalização está se tornando muito popular na
América do Norte, Austrália e Europa. E por fim
vamos contratar um biólogo e um engenheiro para
projetar uma escada ou rampa para que os peixes que
vivem no baixo curso do rio possam ter acesso a
represa. E vice-versa. Nossa meta central é valorizar
nossos peixes nativos.
Desde
que fizemos o livro do Rio São João, temos em mente
propor a comunidade que a piabanha seja o animal símbolo
do rio.
O
Consórcio tem alguma proposta para a pesca esportiva?
Vamos
analisar a experiência mundial e pegar idéias. Além
da melhoria do rio ao qual nos referimos, podemos
estimular os pesque-e-pague através das Prefeituras
associadas. Mas há resistências por parte dos
pescadores esportivos porque os peixes
não são desafiadores para alguém com experiência.
Ademais, por serem alimentados
com ração, via de regra não
são saborosos. Mas eles são importantes para as famílias.
Para levar os filhos. Tememos por outro lado que estes
tanques se arrebentem, como ocorre usualmente, e que
peixes exóticos acabem indo para os rios. O
bagre-africano é um dos que mais tememos. Vamos
solicitar ao IEF para banir através de ato legal, a
criação deste peixe na bacia. E ainda fazer uma
parceria com a EMATER para conscientizar os
produtores. Uma idéia que estamos analisando, e que
se popularizou nos EUA são os clubes de pesca e áreas
preservadas. São lugares para os quais você paga uma
taxa de filiação e depois pesca num lago que é bem
cuidado por um biólogo responsável. Em verdade, são
áreas preservadas que permitem apenas as pescarias do
tipo pesque e solte. Pode ser uma opção, desde que a
represa não seja alimentada diretamente por um córrego.
Estes lagos poderiam ter piabanhas e outros
peixes esportivos da bacia do rio São João.
| SUGESTÕES
PARA LEITURA
COURTENAY
JÚNIOR, W.R.; STAUFFER JÚNIOR, J.R..
Distribution biology, and management of exotic
fishes. The Johns Hopkins Baltimore/University
Press. Baltimore, Maryland: The Johns Hopkins
University, 1984.
FAO.
Management of Asian Reservoir Fisheries. 1980.
FAO.
Conservación de Los Recursos Genéticos de
Los Pesces: Problemas e Recomendaciones. 1984.
MATURELL,
G.J.; TAPIA, F.A.. The fishery of Cichla
ocellaris in Gatum Lake, Panama. In:
INTERNATIONAL WORKSHOP ON ECOLOGY AND
MANAGEMENT OF FISH IN LAKES AND RESERVOIRS,
2., 1987. Santiago, Chile. [s.l.:s.n.], 1987. |
Paulo
Bidegain
Biólogo
|